José Sócrates, ex-primeiro ministro de Portugal, vai regressar como comentador do canal público de televisão. Acto imediato, este país, que por estes dias tanto tem com que se indignar, desbobra-se em petições, amuos, chiliques, falta de ar e ataques de pânico.

Mas, vamos por partes, numa espécie de método socrático, com ironia e maiêutica, como praticava o verdadeiro filósofo Sócrates, para ver se chegamos ao fundo da questão.

É verdade que José Sócrates tem culpas no cartório a propósito do estado a que isto chegou. E não são culpas leves, são pesadas e efectivas. Mas os pecados do ex-primeiro ministro não são suficientes para o tornarem o único culpado, uma espécie de bode expiatório de incompetências várias que se estendem no tempo e que perduram na história recente.

A ideia de que Sócrates é o único culpado foi sendo habilmente desenhada pelo eixo que neste momento ocupa o poder em Portugal, naquele que provavelmente foi o acto governativo mais eficaz, pelo menos tendo em conta o grau de credibilidade que os argumentos parecem ter colhido na sociedade portuguesa. A eficácia foi tanta que, por vezes, por demasiadas vezes, muitos se esquecem que PSD e CDS também estiveram no acordo que foi assinado com a troika e que pelo menos o PSD sempre quis ser mais troikista que a troika, por muito que agora venha dizer que o programa estava mal desenhado.

Atirar para cimna de Sócrates as culpas e as desculpas não explicam o colapso da economia, o desmoronar do Estado Social, o descalabro do desemprego. Para além dos erros de terceiros, a actual situação do país é fruto do programa ideológico do actual governo e é também fruto de muitos outros antes dele e também antes de Sócrates.

Alguns deles ainda se mantêm, tanto cá como lá, no poder. Não são comentadores, mas sim actores efectivos deste teatro trágico, apesar de continuarem em silêncios comprometedores ou embrenhados em ficções que se destinam a encobrir a realidade. Alguns deles passeiam-se impunemente no canal público e nos privados, outros vendem as suas teorias em jornais de propaganda pagos por todos nós.

Sim, é verdade, há muito com que se indignar neste país. Daí que talvez seja melhor pouparmos as forças e direccionarmos a indignação para o que realmente vale a pena.