Vou ali e já venho! Deve ser mais ou menos assim que o presidente do Governo Regional se despede dos seus colaboradores mais próximos. Quem, quase todos os meses, tem o hábito de se ausentar uma semana acostuma-se a despedidas simples, sem mais esta nem aquela. Vou ali e já venho! E pronto, mais ninguém chateia. Antes pelo contrário. Enquanto o presidente vai a Bruxelas ou a Estrasburgo e volta, os seus colaboradores bem podem programar uma visita à terra do Papa que veio do fim do mundo. Não se sabe se o presidente vai de carro ou a pé, mas lá que demora, disso ninguém tem dúvidas. O mais risível (se não fosse escandaloso) de todas estas já largas dezenas de viagens, nem é a frequência ou o secretismo com que as faz. É mesmo a falta de interesse prático da ordem de trabalhos que o presidente, forçado por tantas críticas, se vê obrigado a mandar divulgar. E atenção que, às vezes, quando a Quinta Vigia diz que o presidente vai a Bruxelas, já ele lá está. Mas voltemos às atarefadas agendas de Jardim em Bruxelas. Tomemos como exemplo apenas esta última viagem onde a Presidência fez o favor de informar o seguinte: “O Presidente do Governo Regional da Madeira participa em Estrasburgo, na sessão plenária do Congresso dos Poderes Locais e Regionais do Conselho da Europa. Para além de também participar numa reunião dos membros do Partido Popular Europeu nesta Instituição, a ordem de trabalhos aborda as seguintes questões, entre outras de mero carácter formal ou administrativo: a democracia regional e local na Espanha, na Itália, na Bélgica e na Hungria; participação dos cidadãos; regionalização na Europa num contexto de crise económica; o combate à exclusão social.” E pronto! Foi para isto que o presidente lá esteve de terça a quinta-feira desta semana. Por mais legítima que seja a participação do presidente nestes banquetes políticos, a verdade é muito simples: Está a Madeira a braços com a mais grave crise económica dos últimos 30 anos e o presidente anda a discutir a democracia "na Espanha, na Itália, na Bélgica e na Hungria". Está a Madeira com mais de 25 mil desempregados e o presidente anda a discutir a democracia "na Espanha, na Itália, na Bélgica e na Hungria". Está a Madeira com milhares de pessoas à rasca e o presidente anda a discutir a democracia "na Espanha, na Itália, na Bélgica e na Hungria". Está a Madeira com outras centenas de pessoas que fazem fila para matar a fome e o presidente anda a discutir a democracia "na Espanha, na Itália, na Bélgica e na Hungria". Estão crianças à fome por essa Madeira dentro só porque a cantina da escola fecha nas férias da Páscoa e o presidente anda a discutir a democracia "na Espanha, na Itália, na Bélgica e na Hungria". Se isto não é gozar com o freguês, então não sei o que será. Mas sei que este povo "cachorro", "pata rapada" e "vadio" merece mais consideração, mais respeito. E sei que enquanto o presidente vai ali e já vem, há cada vez mais madeirenses que também passam pelo aeroporto, mas com duas diferenças: vão para trabalhar a sério e a esmagadora maioria também vai ali mas não volta tão cedo. Se este turismo que o presidente vem fazendo nos últimos anos não é uma verdadeira e escandalosa afronta aos madeirenses, então... vou ali e já venho