A minha primeira visão da terra foi através da água. Lembro-me do meu primeiro nascimento. Nasci cheia de memórias de água. Sempre à espera de sons perdidos e à procura de perdidas cores, permanecendo para sempre no limiar como alguém perturbado por recordações. Corto o ar a passo largo com largos golpes de barbatana e nado através de quartos sem paredes. Expulsadas de um paraíso de som, catedrais ondulam à passagem de um corpo como música sem som. Esta música sem som só podia ser encontrada à noite pelo caminho do sonho. Logo, que, o sono cobria a rígida cidade nova e a rigidez de um novo mundo, abriam-se os portais mais pesados deslizando em gonzos oleados e entrava-se na ausência de voz que pertence ao sonho. Era o terror e a alegria de homicídios conseguidos em silêncio, um silêncio de calhas e de escovas. O lençol de água cobrindo tudo e abafando a voz. E, um monstro trouxe-me, por acaso, à superfície. Perdida dentro das cores de água, cores que vão dar a outras e se misturam sem fronteiras. Flores palpitando-me nas hastes como corações-de-mar. Peixes feitos de veludo, de organdi com dentes de renda, feitos de tafetá recamados de lantejoulas, peixes de seda e penas e plumas, com flancos lacados e olhos de cristal de rocha, peixes de couro curtido com olhos de groselha. Olhos como o branco de um ovo. Nenhum deles sentindo o seu próprio peso, o cavalo marinho movendo-se como uma pena. Era como um longo bocejo. Eu amava com a facilidade e a cegueira e as mansas viagens na água transportando-nos através dos obstáculos. A água estava ali para nos transportar com um abraço gigante, havia sempre a água para nos repousar e, que, nos transmitia as vidas e os amores, as palavras e os pensamentos. Eu dormia muito abaixo do nível das tempestades. Movia-ma dentro da cor e da música como dentro de um diamante-mar. Não havia correntes de pensamentos, apenas a carícia-fluxo-anseio misturando-se, tocando-se, afastando-se, vagueando no abismo infinito da paz. Não me lembro de ali estar frio nem calor. Nenhuma dor provocada pelo frio ou pelo calor. A temperatura do sono sem febre nem arrepio. Não me lembro de ter tido fome. Era-me alimentada através de poros invisíveis. Não me lembro de ter chorado. Sentia, apenas, a ternura mover-se, passar para um outro corpo, absorvida e perdida dentro da carne de outrem, embalada pelo ritmo da água, pela lenta palpitação dos sentidos, pelo deslizar de seda. Vem comigo. Vem comigo para a minha ilha. Vem para a minha ilha de rosas vermelhas que crepitam lentamente, de botes de cerâmica mourisca guardando a água dourada, de palmeiras, de gatos-bravos em luta, de um burro que soluça na alvorada; os pés entre os recifes de coral e anémonas-marinhas, o corpo coberto de algas longas, o diamante inexorável de luz do dia, horas pesadas e flácidas nas sombras-violetas, rochas cor de cinza, oliveiras, limoeiros suspensos como lampiões num grande jardim, rebentos de bambu em constante vibração, o som macio das alpergatas, romãs explodindo sangue, o canto-flauta mouro, longo e persistente dos homens que lavram a terra, trinando, blasfemando, louvando, injuriando, entregando na terra suor e sementes. A tua beleza submerge-me, submerge o mais fundo de mim. A tua beleza queima, dissolve como nunca me dissolvera. Eu era a diferente, era eu própria, mas em ti vejo a parte de mim que és. Sinto-me em mim. Sinto a minha própria voz tornar-se mais grave como se tivesse bebido, como se cada parcela da nossa semelhança estivesse soldada pelo fogo e a fissura não fosse detectável. As tuas mentiras não são mentiras. São flechas lançadas para fora da tua órbita pela força da tua fantasia. Para alimentar a ilusão. Para destruir a realidade. Vou ajudar-te: inventarei para ti as mentiras e com elas iremos atravessar o mundo. Atrás das nossas mentiras desenrolo um rosário de ouro porque, de todas as alegrias, a maior é voltar ao ponto de partida e dormir uma vez por ano livre de todas as estruturas de superfície. Tu deixaste a tua marca no mundo. Eu o atravessei como um fantasma. Será que à noite alguém dá pela águia na árvore ou pelo mocho que vem contra a janela como mata-borrão ou pela piedade que vacila como luz de vela ou pelo conhecimento seguro sobre o qual as pessoas adormecem? Pára de tremer, de te agitar, de te sufocar, de amaldiçoar, de reencontrar o teu fundo. Descansa das complicações, destorces, deformações. Por uma hora serás eu, ou antes, a outra metade de ti própria. Aquela parte de ti que perdeste. O que queimaste, partiste, estragaste: encontra-se entre as minhas mãos.

Eu sou guarda de coisas frágeis e preservarei de ti o que há de indissolúvel.

Renata Camacho