Já tinha a mala arrumada há dias, depois de vender os pertences fruto de trabalho precário. Muitos trabalhos, trabalhinhos, trabalhecos, que em comum tinham o facto de nenhum ser na área de formação e todos serem mal pagos. Uma mala e uma mochila são tudo o que resta para começar uma vida nova e um novo ciclo, para onde vai empurrada.
Partiu de lágrimas nos olhos. Mesmo sabendo que dentro de horas poderia superar a distância e dentro de dias a saudade, com as tecnologias que nos aproximam neste mundo que é global, de emigrantes diferentes dos de há 60 anos, é certo, mas que continuam, na sua maioria, sôfregos pelo regresso ao país de origem.
Não chegou a ler as notícias do dia seguinte, ou talvez tenha visto nas redes sociais. Não viu as últimas que dão conta de 25 mil desempregados na sua terra de origem, numa contabilidade onde nunca entrou. Começa-se fora da estatísticas e quando damos por ela, estamos fora do país.
Não acompanhou o dia de guerra das petições nas redes sociais contra e a favor do regresso do emigrante mais popular de Portugal. Ainda bem que não viu o que ainda faz correr o seu povo. Seria por certo mais uma facada. Ela que não teve nenhuma petição a pedir que ficasse para valorizar o seu país, com a educação que adquiriu. A licenciatura, a pós graduação, o mestrado, papéis que estão na mala e que suspeita não lhe servirem de muito nos tempos próximos, onde a barreira da língua é a primeira batalha.
Não teve petições, nem movimentos, nem ela, nem os outros milhares que se foram e vão embora e a quem restam as lágrimas de familiares e amigos, os corações apertados e os votos que a sorte deixe de ser tirana.
São os emigrantes de hoje, do mundo global, do skype, das redes sociais, de mais qualificações. Tão diferentes e tão iguais aos de outros tempos.
Passos Coelho dizia há cerca de um ano que o desemprego seria uma oportunidade para muitos mudarem de vida. Penso que está na altura de perceber que mais de um milhão de desempregados é número mais do que suficiente para pensar na oportunidade de mudar a vida dele próprio. Será esta a proposta do comentador Sócrates?