Hoje escrevo exclusivamente sobre arbitragem ou melhor sobre um Homem da arbitragem. Dirão, alguns, "depois de morrer são boas pessoas". Olhe que não, digo eu. E afirmo, com a certeza da luz do dia, que a maioria dos árbitros e dirigentes desportivos desta ilha reconhecem,mesmo sem o expressar publicamente, que desapareceu do nosso convívio uma das referências do dirigismo da Arbitragem Regional. Falo claramente do Sr António Mota. Desempenhava,eu, funções como observador regional quando entrou para Presidente do Conselho de Arbitragem. Tive o privilégio de trabalhar com ele, como técnico de apoio durante a sua gestão. Com ele acabaram-se "classificações forjadas" segundo se dizia na época, dirigentes de arbitragem"carteiros" e suspensão de jogos a 2 minutos do fim porque de repente os árbitros deixavam de ver as linhas laterais do campo. Homem determinado, defendia as suas convicções com tal intransigência que por vezes se poderia confundir com teimosia. Acérrimo defensor dos seus filiados e da Madeira sobretudo quando se tratava na defesa junto das Instâncias Nacionais da Arbitragem. Foi por ele que a Madeira não perdeu um Arbitro Assistente internacional empenhando-se de tal forma, com prejuizos financeiros pessoais e provavelmente na sua carreira de dirigente. Uma arbitragem dirigida de dentro para fora, sem cozinhados fora da própria cozinha. Tolerância controlada, compreensivo e humano com os árbitros mas não admitindo quaisquer interferência na sua gestão. Um dia um árbitro respeitado "pediu" que fosse nomeado para a zona norte da Madeira em virtude de um convivio familiar aprazado para Santana. O "pedinte" foi nomeado, mas para a Ponta de Sol. Algumas vezes não concordava com ele. Contrapunha sempre: "Prof vc é bonzinho de mais, acredita muito nas pessoas, um dia vai lembrar-se disto". O homem tinha razão, já me lembrei.Minha mulher também acha o mesmo. Mas eu sou eu, educado por uma mãe maravilhosa analfabeta cuja profissão foi ter 10 filhos. Ouvia muito e falava pouco. Lembram-se? " Nós temos dois ouvidos e uma só boca" recordava. Fazia jus a um pensamento de Shakespeare "É melhor ser rei de teu silêncio do que escravo de tuas palavras." Pode afirmar-se que foi muito responsável por um dos períodos áureos da arbitragem Madeirense. Não lhe foi reconhecido esse mérito na hora da saida. Como homem de serviço simples e discreto nunca procurou nem reivindicou. Mas se, se faz tanta homenagem a quem faz tão pouco, o Sr António Mota que fez muito, merecia.

Francisco Costa, Técnico de arbitragem