Lá que havia alegria no galinheiro, havia! Tinha acabado o Inverno e todas as manhãs o galo acordava-as para a labuta, logo antes do solo nascer, a tempo de, antes das outras aves da capoeira, poderem se alimentar do melhor milho fresco que a terra produzia. E que bom era saborear aquele milho, antes dos patos, pombos ou dos perus que revoltados, porque acordavam sempre tarde, nunca conseguiam comer essas iguarias! Frangos e galinhas satisfeitos e gratos elogiavam a perspicácia e eficiência de um galo assim que os fazia levantar na hora certa!. E o galo, envaidecido, pela Primavera dentro, começou a cantar cada vez mais cedo, acertando com a hora imediatamente anterior ao raiar do sol, garantindo assim à sua prole a possibilidade daquele repasto matinal. A determinada altura começou a convencer-se que o sol só nascia porque ele cantava e tal como os seus fiéis galinhas e frangos, também o astro-rei lhe obedecia e esperava a sua iniciativa musical para dar a luz ao Mundo. Todos os dias acordava um pouco mais cedo e invariavelmente reparava que só ao seu cantar é que o sol fazia desabrochava o amanhecer. No galinheiro comentava-se: que rico galo temos que até o sol lhe obedece! E o Verão foi chegando e o nosso galo, de papo cheio, foi crescendo nas penas e na convicção de que nada no Mundo acontecia senão através dele, já que só a sua voz de comando ponha o Mundo a andar e o seu séquito de aves a ser privilegiado nesse terreiro desejoso de boa comida. Mandou fazer obras de melhor acesso aos cereais, abonitou o terreiro e embelezou os poleiros para quem convidava os frangos mais servis. Até alguns perus, patos e pombos começaram a amaldiçoar a sua condição, procurando disfarçada mas ingloriamente a engrossar o galinheiro rival, traindo a sua própria natureza. No topo do Verão, as galinhas já eram a raça superior, e o seu galo o supremo chefe, o grande líder a quem tudo se devia, não só o amanhecer, como tudo o que mexia e se fazia. Os galináceos esses, engordavam e pavoneavam-se pela propriedade olhando com desdém e desprezo para os outros animais de quem já tinham a certeza de que tinham sido criados para os servir. Eis que o Outono entra e o galo por uma, por duas, por três vezes sucessivas, antecipa o seu canto e o sol não nasce!. Tenta mais cedo e mais alto, mas nada! As galinhas ainda tontas de sono, mas obedientes, saem ao terreiro e às escuras não conseguem encontrar o seu milho predileto. Esbarram umas nas outras e estonteadas voltam ao galinheiro perdendo a vez para as outras aves que simples e avisadamente esperaram que o sol nascesse. E o erro repetiu-se nos dias seguintes! Que é isto? Então o sol não obedece ao nosso galo?! Onde está a força do seu canto e o obediente respeito que a natureza lhe tinha? Porque estamos a perder aquele milho matinal, agora devorado pelos companheiros da capoeira? Com a escassez invernia, as duvidas passaram às certezas, e o outrora adorado galo começou a ser o responsável pela decadência da raça, pela desgraça alimentar que se abatia sobre o galinheiro. Eram muitos os que desconfiavam que só podia ser o galo o grande responsável pela desobediência do sol que tanto os prejudicava. Alguns já tinham vergonha de subir ao poleiro e outros descobriram que as suas energias tinha sido gastas em obras inúteis e de fachada. Mas poucos entendiam que o sol comandava-se a si mesmo e não dependia do estridente som do chefe! O galo esse não compreendia o que estava a passar: traição do sol? destino astral? maledicência no galinheiro? A certeza para si é que não era a sua capacidade, nem a visão que tinha da mesma, nem sequer a sua voz sonante que fraquejavam ... O que é certo é que num dia chuvoso de Janeiro , as galinhas cansadas de aturar um galo inútil e que só as prejudicava levantando-as cedo demais, sem poderem tirar qualquer proveito, resolveram reunir-se e, de forma irrevogável, baniram o galo às bicaradas para fora do terreiro. De pouco valeu os apelos à confiança ao passado das épocas áureas nas manhãs que floresciam. Nem sequer foram convincentes alguns franganotes ciosos de encher o papo, que à ultima hora se arregimentaram num coro à volta de galo, tentando imitar o seu canto para ver se em coro, o sol finalmente lhes obedecia. O galo esse, ferido na crista e no orgulho, ainda olhou para trás pensando que ia ter a visão da destruição de Sodoma e Gomorra sem ficar empedernido em sal! Espantoso, caros amigos, é que banido o galo e a sua escolta, o terreiro voltou a ter paz. O sol, esse, começou a amanhecer mais cedo, mesmo sem o estridente canto que todos agora procuravam riscar da memória.

Ricardo Vieira