Como não valorar os bens materiais tendo fome? - Pedro Telhado Pereira, Professor Catedrático da Universidade da Madeira Como referiu Koffi Annan na cerimónia de Honoris Causa que lhe foi atribuído pela Universidade Nova de Lisboa, a Universidade deve ser e tem sido transmissora de valores, como a Defesa dos Direitos Humanos, o respeito pelos outros e sua individualidade, e, a preocupação pelos mais vulneráveis, por isso, estranho quando licenciados, muitos deles por Universidades Públicas para cujo financiamento todos contribuímos, parecem não se preocupar nada com os mais frágeis na nossa sociedade e apresentam discursos em que romantizam a pobreza e ignoram o sofrimento que sempre traz associada. Não é preciso ter cultura económica para perceber que o bem-estar do indivíduo não aumenta quando este sofre cortes nos seus rendimentos e, em muitos casos, fica sem ter a certeza de conseguir alimentar a sua família e pagar as dívidas no dia seguinte. Estes dramas pessoais merecem mais do que discursos em que se defende que se podem encontrar modos de vida com menos despesas dando mais valor a bens não materiais. Isso é um discurso que, a meu ver, é ofensivo para os centenas de milhares que se encontram no desemprego e que, pelas últimas previsões do Governo, vão ficar nessa situação para os próximos anos. Estes sabem que a luta pelo pão de cada dia vai ser o seu objectivo permanente e só a coragem e muita força interior os farão continuarem a acreditar que existe a possibilidade de não caírem no desespero. Contaram-me que uma empregada doméstica no Alentejo disse "nós sabemos o que é ter fome, porque já a tivemos, por isso não nos assusta, só que agora temos dívidas e isso faz-nos ter muito medo do futuro". Este é o País real e como tal deve ser respeitado por todos, em particular por quem ainda sabe que tem comida para pôr na mesa amanhã!
Pedro Telhado Pereira, Professor Catedrático UMa