Tenho seguido com alguma atenção a decisão de renúncia de Ratzinger, Papa Bento XVI. Apesar de me sentir cada vez mais desacreditada nos sistemas e nas pessoas e por isso tender, numa primeira análise, a reduzir os discursos e atitudes a estratégias de manipulação ou marketing pessoal, faz parte da minha natureza ir mais além e tentar perceber, quando existe, a essência do discurso. Nesta óptica e porque sou estruturalmente católica, gostei dos últimos discursos de Ratzinger. Pela primeira vez, na minha existência, ouvi um Papa assumir a sua incapacidade para continuar uma tarefa para a qual já não se sentia preparado. "No mundo de hoje", disse, "sujeito a rápidas mudanças e agitado por questões de grande relevância para a vida e para a fé, para governar a barca de Pedro e anunciar o Evangelho, é necessário vigor, tanto do corpo como do espírito, vigor que, nos últimos meses, diminuiu de tal modo em mim que devo reconhecer a minha incapacidade de administrar bem o ministério a mim confiado. (...) Independentemente das razões, da complexidade do sistema e da sua envolvência, enquanto responsável máximo pela igreja católica, Papa Bento XVI, decidiu em consciência e em liberdade finalizar uma etapa da sua vida. Obviamente que quando aceitou assumir o topo da pirâmide, e ser líder duma estrutura como a igreja católica, sabia o que o esperava e não estava cego à realidade da igreja contemporânea, contudo, como muitos lideres, em situações similares, com as devidas diferenças, apesar de conscientes da realidade dos sistemas, tendem com uma certa dose de ingenuidade a acreditar que com vontade e empenho podem ser promotores de mudança efectiva. Esta ingenuidade é benéfica e fundamental para a evolução dos sistemas, mas tem limites, e é aqui que me parece que Ratzinger, foi feliz na sua decisão. Pelo seu discurso, entendi que não quer morrer enrolado num sistema desgastado que tem vindo a perder a sua credibilidade e que exige uma mudança estrutural profunda, para a qual ele já não se sente preparado. É um homem de fé e princípios religiosos e assim quer terminar a sua vida, em coerência. Dar-se ao direito de regressar a si próprio, aos seus princípios e valores. A Vida, independentemente das crenças, é um momento único, de crescimento, maturidade e opções. Podemos optar em qualquer momento por alterar o nosso estilo de vida ou questionar as nossas convicções, aliás nunca deveríamos deixar de nos questionar. Contudo, infelizmente para muitas pessoas, questionar e enfrentar processos de mudança provoca medo, insegurança e abala a estrutura de adulto. Medo da crítica, dos resultados, da perda de estatuto, do recomeço. É como se muitos adultos traçassem um caminho na vida com pouca margem para a mudança. Satisfeitos ou não, vivem conformados com as passadas que foram dando e não se permitem alterar o percurso preestabelecido. Por isto olhamos á nossa volta e observamos que o mundo dos adultos é um mundo vazio e pouco interessante. Os adolescentes falam disto muito bem, e porque, por razões pessoais e profissionais, tenho estado muito próxima deles, tenho aprendido muito sobre o sentido da vida e a procura de satisfação e gratificação pessoal. São tantos os adultos que não abdicam dos seus espaços de conforto e segurança em troca de uma vida mais completa e coerente com os seus princípios e ideais. Há lideres que se mantêm no poder até á morte, imunes ao sentido critico dos outros ao até mesmo de si próprios. Preferem ser usados e instrumentalizados, do que assumir que qualquer função ou estatuto tem fim. Nada é eterno na Vida, um princípio irrefutável. Por isto considero que Papa Bento XVI foi corajoso e coerente e que, independentemente de todas as críticas que lhe possam fazer, a mim deixou-me uma mensagem positiva. Por isso ao ouvir o seu último discurso público, enquanto conduzia, vivi por momentos uma paz e uma serenidade que me deixou mais segura na forma como tenho vindo a gerir a minha vida e a minha espiritualidade. Em inglês aposentação diz-se "retire", que significa o mesmo que retiro. Eu acho que é um privilégio e um sinal de maturidade e sanidade mental, a opção de viver em paz e em coerência, ainda com qualidade, durante Outono da Vida.
Manuela Parente