Eles sempre andaram por aí. Fizeram como Pedro Santana Lopes quando foi corrido do Governo e afastado no PSD e prometeu andar por aí. E anda, de facto. Não se ouve falar muito dele, nem deles, mas a verdade é que andam por aí. Os saudosistas do salazarismo também nunca saíram completamente de cena. Afastaram-se ou foram afastados mas alguns sempre se mantiveram fiéis a uma certo modelo de governação com mão de ferro, ingenuamente alimentada com a ideia de que era preciso por o País na ordem. E era, de facto. Mas não na ordem que tudo comanda e que deixa os cidadãos manietados, amarrados e forçados a comer e calar. Nos últimos tempos, perante a desordem em que mergulhou o País, voltamos a ouvir falar cada vez com mais frequência das alegadas vantagens de um poder forte. E outra vez para por o País na ordem. Quem não se lembra da famosa ideia de Manuela Ferreira Leite de suspender a democracia, nem que fosse por seis meses, para endireitar Portugal. Foi uma piada, foi a brincar, disse rapidamente a antiga líder do PSD. E até acredito que tenha sido uma metáfora mal amanhada, como tantas outras. Mas disse e palavra fora da boca é como pedra fora da mão. Estes comentários às prestações foram criando raízes. São ainda pequenos bolbos subterrâneas, mas encontram na crise e na política de austeridade um terreno fértil para germinar e crescer. De forma quase perigosa começamos a ouvir, aqui e ali, algumas saudades do antigamente. Foi isso que me aconteceu, esta semana, numa conversa animada entre dois cidadãos que tenho como politicamente esclarecidos e com opiniões saudavelmente divergentes. Curiosamente, na conversa de café, os dois reformados comungavam de uma evidente saudade dos tempos da ‘outra senhora’. Não no que de muito mau aquilo tinha, não na perseguição política, não nos presos políticos, não na visão cabisbaixa de quem mandava, mas sim na dureza com que era gerido o País. E, diziam eles, com a rectidão dos governantes desse tempo. Do tempo que eles viveram quando a minha geração ainda andava de calções. Entretanto, ficou um fosso a vários níveis. Os velhos agarram-se ao que viram nascer como o melhor do mundo. Os que se lhe seguiram, e agora estão reformados, foram na mesma onda. Uns e outros confundiram governar com inaugurar. Já os da minha idade começam a perceber que não é bem assim. Que chegámos ao tempo em que governar rima com pagar. E vamos ser nós a pagar o que outros inauguraram de forma irresponsável. A seguir, neste ciclo de 40-anos-de-mais-do-mesmo, vêm os que não sabem onde, nem quando, nem como vão ganhar, mas sabem de uma coisa: também eles vão pagar. E muito. Ora, tudo isto conjugado com as dificuldades actuais, com o protesto que se ouve entre dentes, com os gritos silenciados, com a rebeldia amestrada, com a revolta contida ao máximo, com a tristeza estampada a cada esquina, com a fome a perder a vergonha, com o desemprego a assumir proporções inimagináveis e com patéticos jogos de poder entre quem é pago para mandar, pode causar uma mistura explosiva. E é isso que temo. Quando idosos esclarecidos, que conheceram os podres do antigo regime, vêm nesse mesmo modelo cada vez mais virtudes; e quando os novos notam neste regime cada vez mais vícios e entraves, está aberto um perigoso caminho para um recuo democrático que pode ter graves consequências. Este emaranhado de equações corre o risco de fazer entusiasmar alguns dos mais novos para radicalismos indesejados oferecidos por movimentos bafientos e bolorosos que ainda andam por aí. Por isso, ao contrário de Ferreira Leite, acho que não se pode suspender a democracia. Nem a brincar! Mas lá que se pode suspender quem manda nesta democracia, lá isso pode-se. Antes que seja tarde.