No início da semana, a Itália - pós-bunga bunga - foi chamada a votos, e aquele que prometia ser um confronto digno de um filme de Sergio Leone, redundou num momento de anticlímax político, não por ninguém ter perdido, mas, surpreendentemente, por ninguém ter ganho. Todavia, por entre os destroços de uma noite de eleições sem vencedor, e com uma dívida pública a roçar os 120% como pano de fundo, desenhou-se uma nova face da política na Europa, um desesperado alargar do garrote de Bruxelas - abram caminho a Beppe Grillo. Para compreender Grillo e o "Movimento 5 Estrelas", urge definir a Itália de hoje, um país - à semelhança de tantos outros no Sul da Europa - dominado pelo dogma da austeridade e desencantado com a sua classe política. Definido o cenário, é hora de introduzir os actores deste enredo, que tem tanto de italiano, como de português. Mario Monti, ex-primeiro ministro italiano, líder por obra e graça dos credores do país e não eleito por aqueles que governava. Luigi Bersani, antigo ministro dos governos de Prodi, versão diluída de Monti e prova viva de que a dialética ganha eleições. Silvio Berlusconi, qual fénix renascida, propõe impostos mais baixos e um Estado menos interventivo, esquecendo-se dos 10 anos no poder em que fez exactamente o oposto. Por fim, Beppe Grillo, de cómico a político, de banido dos debates televisivos a rei dos comícios, enchendo todas as praças por onde passou. Apesar de arrecadar o maior número de votos, Bersani precisa de uma bengala para formar governo, e depois de ter afastado Berlusconi, resta-lhe Grillo. Convocadas ou não novas eleições, é certo que os italianos deram voz a uma nova forma de fazer política, longe dos grandes partidos, feita por pessoas, para pessoas.

João Paulo Marques, Advogado