Em ciclos que se repetem, reinventa-se, com maior ou menor grau de inovação, o caminho, o rumo para justificar as opções por esta ou aquele prioridade. Raramente se olha para trás avaliando o que outrora foi a inovação que, na maior parte das vezes, não passa de meia dúzia de chavões de uso efémero e restrito no vocabulário dos gurus da moda e que transitam, também temporariamente, para o palanque e os debates repetitivos que nos são impingidos como sacramento obrigatório. Estaria na altura de não deixar as ideias essenciais nas mãos dos que pouco se identificam com a essência do lugar, a sua história, natureza e, sobretudo vontade, potencial e querer. Precisamos de ideias para o como fazer mas, já não tanto para o que fazer. O que fazer, está mais que visto, não esquecendo o que somos, o que temos e o que isso pode valer no contexto geográfico, social e económico em que nos movemos, sem deixar de olhar para outros espaços e novas oportunidades, tendo e conta que, entretanto, já não somos só o que em tempos fomos. Há mais capacidade, vontade, experiência que podem e deve ser colocadas, de forma competitiva, lá fora e cá dentro. Novos caminhos, para o futuro, passarão obrigatoriamente pelo reconhecimento dos activos mais importantes, tanto mais que tais recursos, hoje, não se limitam a uma oferta de interesse local. Do lado da natureza, o mar, a biodiversidade, a paisagem merecem ser revisitados e colocados no centro da dimensão ambiental do modelo de desenvolvimento regional. A Madeira não pode continuar a olhar para estes recursos apenas como algo que tem que constar da "lista de compras" mas, quando chega ao momento de as meter no carrinho, hesita ou, simplesmente, passa adiante porque a prioridade é o "papo seco com molho". O Mundo e a Europa investem, hoje, significativamente numa transição para uma economia sustentada na gestão inteligente e duradoura dos recursos, conferindo ao mar um papel central e decisivo, olhando para a sua natureza tridimensional, fugindo da visão tradicional e redutora que confunde mar apenas com pescas e aquacultura. A geoestratégia, os transportes, a biotecnologia, as comunicações, a segurança, o comércio, a energia, a conservação dos recursos, o turismo, a paz, passam necessária e obrigatoriamente pelo mar e, quem tem, em quantidade e qualidade como nós, não pode deixar de olhar para isto de uma forma integrada. E não pode, em momento algum, prescindir ou demitir-se de incluir a dimensão marítima como um dos pilares e caminhos do seu futuro. A biodiversidade, nas suas componentes terrestre e marinha, dá corpo à identidade da Madeira, distinguindo-a enquanto espaço único, com um peso determinante no seu posicionamento enquanto destino turístico. E o turismo, cada vez mais uma actividade económica de conteúdos e menos de avião e cama, não pode prescindir desse conteúdo único, dessa história natural feita pelas espécies, habitats e ecossistemas, que não é repetível como a cama o charter e o bife embrulhados (muitas vezes até mal embrulhados) numa oferta que tem vindo a desqualificar-se e a obrigar a uma maior massa critica, com custos insustentáveis em termos da manutenção dos recursos que suportam. Um dos caminhos futuros identifica, e muito bem, a necessária ligação do mar e da biodiversidade ao sector da investigação e desenvolvimento mas, por muito promissor que seja esse envolvimento, não pode limitar-se a coisa de laboratório. Os recursos naturais (os que temos efectivamente) têm que ser assumidos como elementos transversais. E este reconhecimento não pode ficar-se ao nível conceptual. Há que ser capaz de os baixar ao nível estratégico e, sobretudo, apontando com muita clareza e objectividade, acções concretas, identificando actores e mobilizando meios, na construção de um futuro diferente, inteligente e, nosso. Ninguém o fará por nós.

António Domingos Abreu