Nos últimos dias este é o nome mais pronunciado, mais referido e mais destacado em todas as línguas e áreas geográficas. É o nome que centra a atenção não só do universo exclusivamente católico, mas de pessoas provenientes de todos os contextos culturais, políticos e religiosos. É, por isso, talvez necessário situar este nome, o que ele representa ou pode representar, e situar o homem a que tal nome está associado na realidade objectiva e no contexto das coordenadas do mundo. Este nome ao referir-se, desde logo, àquilo que é único e singular da pessoa não significa que a sua génese, a sua origem esteja apenas no interior da própria pessoa. Ou seja, a génese dessa parcialidade (a pessoa que o nome indicia é sempre uma parcela) está justamente nas relações sociais da pessoa, nas interacções estabelecidas com os outros, com o mundo e no modo como a própria pessoa se apropria de tais relações e interacções de forma única e particular. Deste logo, o nomear, o atribuir o nome é o processo de tornar o que é pessoal, singular e único em algo que pertence à natureza humana, está inserido na universalidade do humano. É tornar a pessoa participante no universal humano, numa abertura a todas as possibilidades que a Humanidade é capaz de construir e que podem ser apropriadas pelas pessoas, o que lhes permite o acesso ao conhecimento necessário para a obter os meios de satisfação da sua existência. De facto, a singularidade do nome é o que distingue um homem de outros, é o que o torna único no contexto da universalidade humana. Esta singularidade do nome é também produto da história das condições sociais e materiais da pessoa, da forma como ela se relaciona com a natureza e com outros homens, da forma como se apropria das mediações que abrem para o horizonte da transcendência. Se é verdade que a pessoa só se individualiza na relação com outros, a forma como a mesma pessoa percebe e representa a realidade possibilita a construção e a atribuição de significado às suas apropriações. Deste modo, nesta sociedade que tudo categoriza, reflexo das relações sociais de produção, em que a realidade é reduzida, muitas vezes, àquilo que se pode ver, medir e observar e que o pensamento fica restrito ao imediatamente dado, o nome singular da pessoa emerge como algo contraposto à totalidade social, à multidão despersonalizadora e à indiferença alienadora. A escolha do nome surge, assim, como um processo de constituição do eu pessoal, de uma personalidade que possibilita à pessoa apropriar-se das realizações da humanidade a partir de determinadas condições de vida. Ora, é tudo isto que esperamos que o nome Francisco, escolha feliz do novo Papa possa significar e expressar. Uma personalidade que se diferencia da sociedade actual marcada pela perplexidade, a partir dos seus princípios, da sua fé, do seu agir, dos seus gestos e do seu modo de viver. Um nome que reafirme propositadamente a simplicidade da relação, a grandeza da proximidade, o acolhimento da fragilidade e o silêncio actuante e criativo do Espírito. Que este nome que passou a identificar uma pessoa e uma missão preencha, com essência significativa, um projecto de vida que emerge como uma incontornável referência para a Humanidade. Que Francisco, o Papa, seja, tal como o Francisco de Assis a que o nome evoca, exemplo e promotor da paz, da bondade, da beleza e do respeito por toda a Criação. Que a grande e inesperada originalidade do seu nome se concretize em muitos dos seus gestos, afirmando uma Igreja pobre e para os pobres.
Marco Gomes