Podem chamar-me antiquado, mas sempre entendi que as empresas tinham obrigações para além da criação de mais-valias. Têm obrigações para com os seus funcionários, e para com os seus clientes. Durante semanas vimos anúncios nos Pingo Doce acerca das quebras de stock estarem relacionadas com a greve dos estivadores. Até acredito que - em parte - isto corresponda à verdade. Mas a causa real destas quebras está no facto de, para poupar cêntimos, o Pingo Doce ter denunciado o contrato com o ferry e ter passado a transportar tudo o que aqui vende em porta-contentores. Perdeu flexibilidade, perdeu frescura, e prestou um mau serviço aos madeirenses, já que era também à conta dos camiões do Pingo Doce que se garantia a sustentabilidade económica da linha de ferry do continente à Madeira. Não notei que a diminuição dos preços de transporte tenha tido reflexo nos clientes, mas estou certo que os recentes aumentos dos fretes vão ser imputados aos consumidores. Tudo isto torna viver na Madeira mais caro e mais difícil, aumenta o nosso isolamento e limita a competitividade, particularmente do turismo. Quero manter a convicção que a opção pelos porta-contentores tenha sido apenas um acto de (má) gestão, e não uma cedência aos interesses instalados que há tanto tempo controlam os acessos marítimos à Madeira. Não sei se a linha ferry tem de ser Armas, preferia uma ligação a Lisboa que a Setúbal ou Portimão, e a ligação aos Açores interessa-me mais que às Canárias. Mas o importante é a reposição da nossa "estrada" para o mundo.
Roberto Loja