Ao acompanhar os acontecimentos recentes da Igreja Católica, lembrei-me da origem do relógio e das suas consequências: o relógio mecânico surgiu nos mosteiros Beneditinos do século XII, locais de rotinas precisas que incluíam momentos de devoção. Para facilitar a sua vida, os monges criaram uma máquina que tocava um sino quando chegava a altura da oração. Os monges nunca sonhariam que esta máquina criada para dedicar-se de forma mais rigorosa a Deus seria uma das mais úteis para os homens que se dedicam a acumular dinheiro. Lewis Mumford dizia em 1934 no seu livro 'Technics and Civilization' que o relógio tornou possível a ideia de produção regular, horário regular de trabalho e um produto padronizado. Isto é: sem o relógio, não teríamos capitalismo. Existem mais exemplos desta combinação de tecnologia + lucro: na década de 1930, a IBM formou uma aliança estratégica com os Nazis, desenvolvendo os programas de identificação e catalogação de judeus (nos Censos de 1933) e a logística das campanhas de seleção e extermínio dos anos 40, utilizando máquinas e cartões fornecidos pela IBM. Tudo foi quantificado e parametrizado. É o problema da tecnologia sem alma, sem cultura, sem humanidade. Como Frederick Taylor, muitos pensam que o principal propósito do trabalho e do pensamento humano é a eficiência, reduzindo as pessoas a simples autómatos. Se não nos libertarmos desta mentalidade Taylorista, como poderemos tentar atingir um sentido de transcendência e mudar alguma coisa no mundo?
Roberto Macedo Alves, Desenhador de BD