Francisco. Simplesmente Francisco. Sem numeração romana como ‘sobrenome’. Esta é a primeira imagem que milhões de pessoas terão ficado daquele homem que apareceu à varanda na Praça de São Pedro. Um homem vestido de branco e recém investido de Papa. Ao contrário do que se estaria à espera, do que eu estaria à espera, quem quebrou a expectativa criada em todo o mundo uma hora antes, quando saiu fumo branco, foi um homem aparentemente simples. Um homem que parecia nervoso e assustado com a multidão e sobretudo com o peso que lhe puseram às costas. Um homem que, ou muito me engano, ou cortou rente com alguma teatralidade da Igreja. Que em vez que aparecer ao mundo com gestos ensaiados de saudações repetidas e bêncãos a rodos, surgiu aos fiéis com um singelo boa noite. Quase desconcertante. O tempo dirá se esta simplicidade e esta aproximação ao mundo real, da crise e dos pobres, será ou não duradoura e verdadeira. Se a opção pelo nome de Francisco terá ou não correspondência ao espírito de Francisco de Assis e ao desprendimento pela vida material. Mas a primeira impressão é muito forte e permite à Igreja uma expectativa que fica para além daquele ritual dos cardeais luxuosamente ornamentados, cobertos de ouro e de um escarlate que choca com a simplicidade dos mais devotos e dos que menos têm. O Papa que os cardeais foram buscar ao fim do mundo, como ele próprio disse, começa bem, apesar de se conhecerem já notícias de atitudes no seu passado que não serão as melhores referências e que carecem de rápida explicação. Mesmo assim, inicia-se agora o tempo de estado de graça que têm quase todos os líderes em início de funções. Esperemos para ver. Entretanto, espero não me enganar em relação ao Papa como me enganei em relação ao actual bispo do Funchal. Também ele começou bem. Sorridente e a distribuir saudações. Mas o sorriso de Carrilho deu lugar a uma estranha severidade. A uma impensável conformidade e uma resignação, informal mas quase efectiva, que se manifesta de uma forma demasiado simples: para evocar os santos, Deus e as Escrituras, temos bispo; para denunciar as agruras da vida e demarcar-se de outros poderes, temos um Carrilho ausente. Por vontade própria ou por condicionalismos em que se foi deixando enredar nos corredores do Paço e por quem com ele convive, a verdade é que o bispo sorridente é hoje um bispo ausente. Se o Papa veio do fim do mundo, este bispo parece viver noutro mundo. De outro mundo também são os governantes que nos calharam em sorte. A minha geração teve o azar de encontrar pela frente políticos que prometem o céu e nos conduzem ao purgatório. Gente como a gente que se rodeia de gente pior do que a gente e que nos tem nas mãos. Para o bem e para o mal. Gente que fez da maioria de nós apenas contribuintes desinteressados da gestão do que também é nosso. E aqui estamos, muitos como carneiros que seguem carneiros guiados por falsos pastores e ajudados por cachorros que rapidamente aprenderam a ladrar. Isto, para usar uma linguagem cara ao presidente do Governo Regional. Mas os governantes que agem como se vivessem noutro mundo não estão apenas neste pedaço de terra a meio do mar. Também os há, e de sobra, no rectângulo, novamente para usar linguagem fundada pelo único que se fez importante entre nós. A conjugação de políticos de cá viciados em cimento e alcatrão, com políticos de lá que cedem aos caprichos de cá para evitar chatices, ajuda a explicar por que razão estamos agora encostados à parede. Curioso que apesar do pântano em que mal consegue mexer os pés, o presidente do Governo Regional dizia anteontem duas frases com tanto de acutilância como de descaramento. “Não podemos adorar sempre os mesmos bezerros de ouro e as mesmas figurinhas”, disse. E acrescentou: “Em 4.700 inaugurações que fiz, estou sempre a ouvir que o único defeito é a marina do Lugar de Baixo”. Tem toda a razão na primeira frase, não se pode passar uma vida inteira a adorar sempre os mesmos e os seus quase 40 anos já estão muito para além do razoável. Mas engana-se na segunda frase. Não é apenas a marina do Lugar de Baixo que foi um erro. O erro foi não termos mudado de bezerro quando percebemos que este não nos leva a mais lado nenhum. Mas a maioria foi caindo no engodo, nos sucessivos anúncios das falsas partidas e nas palavrinhas mansas. Afinal, como se diz na minha terra, “bezerro manso, mama o seu e o alheio”.