Quero ver o teu sorriso melodioso indo e que seja para mim símbolo e emblema visível do meu soluço e sonho calado e sonho inúmero.

Quero ver as tuas mãos que tocam harpa para que me fechem as pálpebras quando eu morrer de ter dado a construir-te a minha vida.

Sei que não és ninguém, mas serás, para sempre, a arte querida dos deuses que nunca foram, dos deuses que nunca serão.

Quero-te! Quero-te como um sonho de não sonhar-te e aqui fica a minha pergunta de minutos incontados:

Quem és? Em todos os meus sonhos apareces, sonho ou realidade falsa me acompanhas. Visito contigo regiões que são talvez sonhos teus, terras que são talvez corpos teus de desumanidade, o teu corpo essencial descontornado para planície e monte de perfil oculto. Talvez não tenha outro sonho senão tu, talvez seja nos teus olhos, encostando a minha face à tua, que lerei paisagens impossíveis. Quem sabe se as paisagens dos meus sonhos não são o meu modo de te não sonhar? Não sei quem és, mas sei ao certo o que sou? Sei se não és uma parte real e essencial de mim? E sei se não sou eu o sonho e tu a realidade, eu um sonho teu e não um sonho que se sonhe?

Que espécie de vida tens? Que modo de ver é o modo como te vejo? Teu perfil? Nunca é o mesmo, mas não muda nunca. E digo porque sei, ainda que não saiba o que sei.

Teu corpo? Nu é o mesmo que vestido, sentado está na mesma atitude do que quando deitado ou de pé. Que significa isto, que não significa nada? Por que falar-te com ternura e amoroso sonho? Na tua vaga essência, não és nada, não tens realidade, nem mesmo te sinto.

És como um sentimento que fosse o seu próprio objecto e pertencesse todo ao intimo de si próprio. És sempre a paisagem que estive quase para poder ver, a orla da veste que por pouco não pude ver.

O teu perfil é não seres nada, e o contorno do teu corpo irreal desata em pérolas separadas o colar da ideia de contorno. Já passaste, e já foste e já te amei, o sentir-te presente é sentir assim.

Ocupas o intervalo dos meus pensamentos e os interstícios das minhas sensações. Por isso não te penso, nem te sinto, mas os meus pensamentos são de te sentir, e os meus sentimentos góticos de evocar-te.

Quem não pudesse criar o novo olhar com que te visse, os novos pensamentos e sentimentos que houvessem de te poder pensar e sentir.

Ao querer tocar-te, as minhas expressões cansam o esforço estendido de suas mãos e um cansaço rígido e doloroso gela-se nas minhas palavras. Curva um voo de ave que parece que se aproxima e nunca chega, em torno ao que queria dizer de ti, mas a matéria das minhas frases não sabe imitar a substância ou o som dos teus olhares, ou a cor triste e vazia dos gestos que não fizeste nunca.

A minha vida é tão triste, e nem penso em chorá-la, as minhas horas tão falsas, e nem sonho o gesto de parti-las.

Renata Camacho