Violante Saramago Matos Com a convicção de quem tem opinião formada e um percurso de coerência, Jardim comenta as manifestações do dia passado 2: há uma «rua que vocifera mas só quer facilidades e não quer trabalhar». Desiludiu-me: denotei uma grande mácula na sua coerência verbal. Seria mais apropriado qualquer coisa como o reconhecimento que há 'uma rua que ladra, mas só quer levar uma santa vida de cachorro'. Mas, enfim, deslizes qualquer um pode ter! Agora, o que me deixou intrigada foi uma lampadazinha que se me 'acendeu' nos miolos. Fui aos meus recortes e que vejo? «Quem protesta tem razão (…) Ontem só não estive na manifestação por uma questão de decoro institucional, porque apetecia-me também estar lá a protestar» - Diário de Notícias, 16 de Setembro, 2012, Festa do Pero, Ponta do Pargo, Alberto João Jardim. E como não há registo de nenhum daqueles 'desmentidos' da Quinta Vigia que, de facto, desmentem coisa nenhuma, o que podemos concluir é que a apreciação sobre as importantes manifestações de 15 de Setembro lhe saiu do coração! Não ponho sequer em dúvida que a personagem nunca mais se lembrou do que tinha dito, mas isso também não tem importância nenhuma. Fosse outro o caso, e poderíamos estar perante uma situação de dupla personalidade, esquizofrenia ou bipolaridade, mas conhecendo a 'peça', sabemos que não é doença. É a reacção típica de quem tem a nítida percepção que já não consegue governar, limitando-se a estrebuchar no tormentoso mar da cena política regional. De quem, tendo criado uma ilusória imagem de determinação e de capacidade para lidar com tudo, se confronta com uma situação económica e social desastrosa que criou e não sabe resolver e que o obrigou, pasme-se, a recorrer à fantochada de uma moção de confiança à procura de uma legitimidade e de uma força objectivamente perdidas. De quem está acossado, incapaz de lidar com a crítica acesa e as vaias dos que durante anos votaram nele mas que se fartaram, pois perceberam a imensa responsabilidade desta personagem no estado a que a Madeira chegou; de quem se quer iludir com um partido espatifado, que se desconjunta mais depressa que os montes de areia importada que desaparecem com a levadia na Calheta; de quem, a todo o custo, gostaria de continuar a alimentar mordomias e privilégios que sabe desaparecerão na hora da derrota; de quem fará tudo para manter o poder que vê fugir-lhe, apesar da desesperada corrida para o apanhar. De quem sabe que a política é um caminho inclinado: quando corre bem, a subida é rápida e esplendorosa, mas quando a descida começa, a queda torna-se inevitável. E, frequentemente, estrondosa. Como está já a ser agora.