O jogo começa quando o jogo acaba. Nunca quando o árbitro apita. Não há um tempo que represente o princípio e o fim. No relvado, aos olhos da opinião pública pragmática (na linha dos treinadores), a bola saltava entre a cegueira do mito da objetividade e a imparcialidade do paradigma da subjetividade. O jornalista do desporto e o jornalista da política, quer no estádio de futebol quer no palácio do governo (num quadro de escassez de fontes dignas de fé ou de fábulas da verdade), pisam o mesmo terreno escorregadio e acidentado, onde cada vez mais se confundem, perigosamente, notícia e espetáculo. Confusão que gera o singular espetáculo da notícia e que deriva da interferência subliminar do subtil interesse cor-de-rosa em «tomar uma coisa por outra». Segundo Furio Colombo, em Conhecer o Jornalismo Hoje, «divulga-se a informação apesar de o grande jornalismo escrito e televisivo parecer encaminhar-se para uma crise de deterioração, uma falta de respeitabilidade e de confiança do público». O jogo do meu jogo é claro à minha luz. Nas margens da batalha violenta de onze contra onze, fora das quatro linhas, o jornalista (com mais olhos do que barriga) tem de entrar no jogo, sem sombra de partido, à procura do equilíbrio, do zero a zero, entre a análise incompreendida e a síntese dialética - entre tudo ou nada, entre perplexas contradições, entre compromissos do off the record, mas principalmente como sujeito insuspeito que traça a linha de meio-campo, a fronteira de leite de cal, entre as palavras das promessas do discurso e a realidade desfolhada do day after; como veículo de uma opinião na direção do fio de prumo que não tem de casar com a opinião pública, que nem sempre casa com as vozes do eleitorado, voluntariamente permutáveis. Uma bola rasgada ao meio não gera duas metades. Destrói um sonho.
Juvenal Xavier, Repórter desportivo