Li, como habitualmente neste jornal (bendita era digital), uma notícia que citava um governante regional afirmando na sua habitual crítica a Lisboa, que a Madeira necessitava, entre outras reivindicações, de «maior autonomia da economia» (regional, supõe-se). Com toda a franqueza, não percebi o alcance da afirmação mas, pensei, será que o que se pretende é mais autonomia para gerir o orçamento regional, ou seja, para utilizar as despesas a seu bel-prazer, com as verbas próprias da Região (impostos cobrados) acrescidas das transferências externas, venham elas de onde vierem (Lisboa, UE)? Mas, não foi isso que se fez até aqui, não teve o Governo Regional toda a liberdade para orientar os incentivos ao investimento no quadro de uma estratégia por si desenvolvida? É claro que teve, só que não o fez, pelo menos em quantidade e qualidade que resultasse num novo paradigma da economia regional. Preferiu aplicar os recursos à sua disposição em infraestruturas (umas boas, outras menos), e descurar as aplicações que fornecessem mais competências, mais empreendedorismo, mais inovação, mais empresas sustentáveis, mais economia de valor acrescentado regional. Veja-se o exemplo do turismo cujo posicionamento estratégico não começou apenas com a dita autonomia mas antes do 25 de Abril traçando um caminho baseado na qualidade do serviço e num produto vocacionado para uma classe média-alta. E, o que se vê hoje? Que o desenvolvimento excessivo do sector do turismo, sem obedecer a regras de planeamento, gerou uma massificação indesejável (imitação de Canárias?) que leva a que hoje produtos como as tradicionais Quintas da Madeira, que deveriam constituir a nossa diferenciação em termos de mais-valia da nossa oferta hoteleira, operam com problemas de ocupação e/ou preço que afetam a sua sustentabilidade económico-financeira. Por isso, não é de autonomia económica que a Madeira precisa, porque já a tem, o que a Madeira precisa é de governantes á altura do desafio de preparar uma região para ser mais autónoma e capaz na formação de riqueza e menos dependente de subsídios externos (que não de investimento) para sobreviver. Mas, para isso é preciso criar um «contexto» mais favorável aos negócios, ao investimento, quer em termos fiscais, quer em termos da disponibilização de recursos (economias externas) que facilitem a produção e a comercialização de produtos e/ou serviços transacionáveis. O que a Madeira, como é sabido, não promoveu, ou não fez, e o resultado está à vista, no turismo, no comércio, no artesanato, na produção agrícola e na pequena indústria transformadora, etc. Mas, valha-nos Deus, temos estradas, túneis, rotundas, miradouros, marinas, caminhos, fontenários, pavilhões gimnodesportivos, piscinas…e uma multidão de funcionários públicos à espera que lhes deem que fazer, designadamente na área da construção e obras públicas. Por isso, mais autonomia? Não, mais economia.
Nuno Jardim Fernandes, Gestor