As profissões de bilheteiro e de cigarrilha, associadas ao transporte de passageiros e de mercadorias respectivamente, já não existem, pelo menos com as características porque eram conhecidas há algumas décadas. O bilheteiro do horário, do Acúrcio ou dos Batatas, para além de ter a tarefa de cobrar os bilhetes, ajudava também o condutor nas manobras de inversão de marcha e no cruzamento com outros carros quando a estrada era estreita, nas paragens para saída de passageiros, e na ida à "caixa" (uma espécie de porta-bagagem) para lhes as cestas das compras. São célebres as expressões ou ordens destes profissionais para o seu colega condutor, como por exemplo: "vai à caixa", "pode seguir", "venha sempre", "'tá bom". O cigarrilha, o ajudante do carro Leacock ou do Sr. Jacinto por exemplo, que transportava as mercadorias do campo para a cidade (Funchal) ou vice-versa, tinha algumas tarefas semelhantes às do bilheteiro, mas acumulava outras funções: arrumar a mercadoria na carroçaria do camião e retirá-la quando chegava ao destino. Durante as viagens, nas subidas da Encumeada ou do Poiso, quando o motor começa a aquecer, enquanto o motorista carregava no travão, os bilheteiros ou cigarrilhas iam à levada buscar água para deitar no radiador e arrefecer a máquina para prosseguir viagem. Muitas vezes, improvisavam um balde a partir da câmara-de-ar que já não servia para utilizar nos pneus. Estas viagens cansativas, tinham uma característica muito importante: a equipa formada pelo condutor e seu ajudante. Nenhum deles era menos importante do que o outro e ambos tinham como objectivo levar a mercadoria ao destino, nem que para isso fosse necessário parar e arrefecer o motor do carro ou dos próprios (condutor e ajudante) com água ou jaqué. É de equipas deste tipo que muitas empresas e governos precisam: pequenas, com objectivos claros, e sobretudo com capacidade de tomar decisões, sejam elas para mandar parar com clareza: "vai á caixa", "pode seguir" ,"venha sempre" ou dizer que "tá bom", "já chega," porque se avançar poderá haver prejuízo.
Joel Freitas, Empresário