Luís Guilherme Ferreira Trabalhei vários anos na escola do Canto do Muro, em São Gonçalo. Aí não havia recreio onde pudesse jogar futebol com os alunos e o lugar escolhido era o campo do Palheiro Ferreiro, o campo do 1º de Maio um pequeno grande clube, o meu clube, onde joguei futebol oficialmente durante onze anos (1956-1967). Depois de pedir autorização à direção escolar para realizar o passeio, dizia aos meus alunos na véspera para trazerem somente o lanche que íamos ao campo de futebol do 1º de Maio. Ficavam contentes e antes de iniciar o passeio recomendava para observarem tudo o que iam encontrando à sua volta. No dia seguinte, na escola, o espirito observador dos alunos vinha ao de cima pois contavam os episódios que me tinham passado despercebidos. Na minha secretária eu tinha uma bola feita de uma meia cheia de trapos e rematada com um nó que nós chamávamos de "cu de galinha"(os rapazes da minha idade sabem de que estou a falar). Quando algum aluno estava distraído a bola entrava em ação. Um belo dia atirei a bola a um aluno e em vez de atingi-lo foi bater no tinteiro que estava na carteira. Se pudéssemos passar para a tela o que a tinta tinha feito no aluno o Picasso não faria melhor. Há dias falando com o meu amigo Daniel Quintal, aluno da altura recordando com saudade os tempos da escola perguntei-lhe se se recordava do episódio da bola. E ele respondeu-me: se me lembro! Eu fui o protagonista. Quando chegava ao meu conhecimento que um aluno tinha fumado, não lhe ralhava. Ia à mercearia do 'Barrigana' , como era conhecido comprava uma caixa de fósforos e um cigarro (na altura vendiam cigarros avulso). Na aula acendia o cigarro e dava umas fumaças soprando o fumo num lenço branco que ficava com uma mancha amarelada no centro. Enquanto fazia esta operação podíamos ouvir uma mosca tal era o silêncio que estava na sala e os olhos dos alunos não se mexiam tal era a atenção que prestavam aquilo que eu estava fazendo. Depois falava no maleficio do cigarro. Passados anos um meu aluno confidenciou-me que não tinha o vício do cigarro devido ao teste que eu fiz do tabaco, embora lá em casa quase todos os seus irmãos fumassem. Esta observação calou-me bem fundo no meu coração.