"É garantido o direito à greve". Assim diz o n.º1 do artigo 57.º da Constituição da República Portuguesa. Os funcionários da TAP anunciaram três dias de greve. Três dias do uso de um direito. Três dias de paragem da empresa, três dias de prejuízo, três dias de má imagem para o país, três dias de inferno para milhões de pessoas e, curiosamente, três dias sem auferir salário. A mesma Constituição refere no seu artigo 13.º ("Princípio da igualdade") que: 1. Todos os cidadãos têm a mesma dignidade social e são iguais perante a lei; 2. Ninguém pode ser privilegiado, beneficiado, prejudicado, privado de qualquer direito ou isento de qualquer dever em razão de ... situação económica ... O argumento que justifica esta greve resulta do entendimento, da autoria de quem a convoca, de que os funcionários da TAP são diferentes dos restantes portugueses. São funcionários de uma empresa participada pelo Estado mas não são iguais a todos os outros milhares das outras empresas detidas por aquele mesmo acionista. Isto porque entendem não querer ser solidários com os restantes patriotas na austeridade e na recuperação do país. A greve em si é daqueles direitos que tem destas particularidades. Não respeita o espaço de liberdade dos outros e atende única e exclusivamente aos interesses individuais, permitindo o atropelo a todos os princípios, ainda que morais, consagrados no mesmo texto que a prevê. Na circunstância atual, quantos funcionários e de que empresas podem recorrer ao direito consagrado da greve? Quantos auferem rendimentos que lhes permitam perder 10% da sua remuneração mensal à conta de uma luta pela afirmação da desigualdade perante os outros portugueses? Quantos, dos cerca de novecentos mil desempregados, dariam tudo para ter três dias de trabalho por mês? Quantos dos portugueses que se encontram na miséria sobrevivem, um mês, com menos do que o valor dos três dias de salário que os funcionários da TAP prescindem por esta luta da desigualdade? A propósito, a nossa Constituição consagra no seu Artigo 1.º que Portugal é uma República soberana, baseada na dignidade da pessoa humana e na vontade popular e empenhada na construção de uma sociedade livre, justa e solidária. É um bom princípio .... há anos!

Eduardo Jesus, Economista