Algo está mal quando um governante com uma moção de confiança é forçado a sair pela porta pequena. O que afugentou Alberto João Jardim não foi uma onda de crispação social formada por centenas de manifestantes enraivecidos na rua. Lá fora não estava uma matilha indomável. Eram apenas 30 gatos pingados. Persistentes e incansáveis contestatários, a maioria dos quais, dirigentes sindicais e velhos conhecidos do chefe do Executivo, que estiveram ali de pedra e cal a marcar a zona com a sua legítima indignação, gritando palavras de ordem, de jugulares inchadas, à porta da Assembleia Legislativa da Madeira, a exigir a demissão ao elenco governativo, convidando quem passava a pegar o microfone, tomar a palavra e dizer de sua justiça. A fazer aquilo que o regime mais abomina: ceder o palanque ao povo que passa na rua, permitindo que cada um liberte as trancas da sua própria consciência e construa o pilar que tanta falta faz à democracia nesta terra acrítica.

De que teve medo Jardim? Os “cachorros”podiam estar de dentes cerrados mas eram quase tantos quantos os jovens da contra-manifestação que fizeram marcação cerrada e juraram, a manhã inteira, que não tinham nada a ver com a JSD, embora demonstrassem uma obediência canina ao deputado celebrizado por ter urinado numa viatura policial e que, ontem, tudo fez para deixar a sua marca na rua quando decorriam os trabalhos no plenário. O que temeu o presidente do governo se à conta da ‘sua’ moção de confiança, a PSP mobilizou perto de 30 polícias, um para cada manifestante?

Jardim já não tem mas é “pachorra” para nada nem para ninguém, excepto para ele próprio. Não tem “pachorra”nem mesmo para estender o braço e cumprimentar a encenação dos ‘jotinhas’ que lá fora o aclamavam como um salvador na terra prometida: “Presidente só há um… Alberto João e mais nenhum!”. Preside um governo de faz-de-conta, apoiado por uma moção de confiança de faz-de-conta, aprovados por deputados que fazem de conta que fazem alguma coisa de útil ao futuro dos seus mandatários. Mas Jardim já não tem "pachorra" sequer para as encenações feitas à medida do seu delírio. Vamos lá fazer de conta que o parlamento confia no governo. Que aquele auto-retrato bajulador que ontem levou o governo em peso para se envaidecer na Assembleia não é uma obra-prima da propaganda política e do culto de personalidade de um homem que todos os outros desejam ver pelas costas. Vamos fazer de conta que ninguém está a contas com a Justiça, que "tudo o que se fez na Madeira foi legal", que Alberto João não assinou resgate algum com a ‘troika’ e que Sócrates, Merkel e Passos Coelho são os grandes responsáveis pela governação de 35 anos. Vamos fazer de conta que a Região ainda é Autónoma e que a independência da Madeira não é uma manobra de diversão velhaca para o regime continuar a lucrar eleitoralmente com insinuações ao separatismo e que os “estudos” que o PSD-M diz que vai encomendar não é mais um delírio. E deliremos, irmãos. Com toda a confiança, deliremos.