Poucos dias antes do 25 de Abril e do fim de uma ditadura de quase cinquenta anos, um grupo de velhos oficiais-generais foi prestar solidariedade e manifestar fidelidade a Marcelo Caetano. A então baptizada de ‘brigada do reumático’, reunia o que restava de um regime patético, liderado por gente que nunca soube apostar na mudança. Os velhos oficiais, carregados de medalhas do 10 de Junho e há muito afastados da frente de combate, queriam contrariar a realidade e convencer Marcelo e a si próprios de que tudo estava como d’antes… mesmo que o quartel-general já não fosse em Abrantes.

É mais ou menos isso que vão fazer, hoje, os deputados do PSD-M, numa encenação curiosa, no hemiciclo da Assembleia Legislativa da Madeira. Vão aprovar uma moção de confiança, apresentada por Alberto João Jardim a pretexto de uma acusação judicial que o Governo Regional nem admite existir – mas já terá contratado advogados… - e sobre a qual nem fala, mostrando que tudo está ‘como d’antes’. Mas não está.

A moção de confiança e as duas moções de censura que serão discutidas esta semana têm o seu destino previamente traçado, porque as maiorias servem precisamente para proteger os governos que suportam, mas surgem num momento único da vida regional. No meio de uma tragédia social e económica sem paralelo, com desemprego e falências de dimensões de catástrofe, a verdadeira confiança ou censura nunca será privilégio exclusivo dos 47 eleitos do povo que ocupam as cadeiras da Assembleia. Está muito acima. O Povo, órgão máximo numa democracia, é o verdadeiro juiz e há muito que está a pedir a palavra.

O Povo a quem chamaram vadio, acusaram de não querer trabalhar quando integra nas suas fileiras mais de 25 mil desempregados, o Povo ‘comuna’ que nem sabe o que isso é mas que, pela primeira vez, participou em protestos. Esse Povo que mostrou, nas muitas cerimónias oficiais que se multiplicaram nos últimos tempos, que já não aplaude por instinto, nem grita ‘vivas’ a cada paragem dos discursos.

Um Povo que foi despromovido de ‘superior’ a ‘cachorro’, não tem galões de general, é ‘pata rapada’ e não tem lugar em ridículas brigadas do reumático de fim de regime. Mas vota.