O vídeo tornou-se viral por estes dias. Nele, Joana Manuel, actriz, jovem aos 36 anos, conta-nos uma vida que classifica de intermitente. Uma vida activa marcada por recibos verdes, por incertezas e por anos e anos de trabalho para as mesmas entidades sem que daí venha a desejada segurança.
Joana Manuel ironiza a sua juventude forçada aos 36 anos e, com isso, dá um retrato de um país que, historicamente, nunca garantiu a quem o habita um estatuto compatível com a idade. Com uma frieza calma, Joana fala de um país onde os pais nunca foram meninos e os filhos não podem ser hoje adultos. Uma espécie de país adiado sem lugar para uma idade maior ou menor, sem lugar para uma esperança que vá além de um recibo verde passado sem ânimo e pago com dificuldade.
É um país onde a vida nunca foi fácil, onde as meninas já nasciam mulheres e os rapazes eram homens aos nove anos. Foi assim para a geração dos pais dos jovens de hoje, e que, apesar de tudo, ainda são o garante da rede que o Estado nega àqueles que obriga a ser jovens aos 36 anos, presos à casa dos pais, sustentados na incerteza e no desemprego.
Joana Manuel fala da revolução de Abril, do povo é quem mais ordena, e depois, em contra-ciclo, em desalento, em desatino, diz que quer ser mãe e não sabe como fazê-lo, diz que quer trabalhar e não a deixam.
No entanto, é ainda uma privilegiada. Ainda come todos os dias e ainda tem um tecto. A ironia cala fundo em quem não é permitida uma idade maior, da mesma forma que não foi permitda aos pais uma idade menor.
As palavras têm, em Joana, o peso real de uma verdade sem subterfúgios, Cada palava encerra um sentido certo e uma medida que nos reposiciona no mundo. O Portugal que descreve é, sem dúvida, o nosso, do futuro eternamente adiado, do passado que acreditava no futuro, e depois, novamente, do futuro que afinal não se concretiza. Uma espécie de labirinto sem fio de Ariadne, onde é possível viver, mas não existir de pleno direito e com a vontade certa. Um país de meninos por ser e de adultos adiados. Um país de idade sempre errrada, como se fosse impossível acertar o passo e o coração.
Somos nós este descompasso, este arrepio consciente sem direito ao sono e ao sonho. Somos nós este corpo de idade incerta, ditada mais pelas circunstâncias do que pela cronologia dos anos. Meninos presos em adultos e adultos presos em meninos. Não é uma dança esta que nos acompanha os dias, mas sim uma luta coreografada contra a nossa vontade. O fato que vestimos não é o nosso e o coração, ainda assim, bate e diz e acerta. Tal como Joana, acertamos no discurso, no diagnóstico, mas falhamos sempre a realidade, a hora certa, a idade nossa e o tamanho real que temos no espaço que ocupamos. Somos uma espécie de pássaros desatinados que não acertam a morfologia do voo. Presos ao movimento que anuncia mas não se concretiza. Eternamente adiados. É este o nosso estado e o nosso Estado.