Cães amarrados no meio de hortas para espantar coelhos e pássaros, em varandas e garagens para espantar ladrões. Têm muito para dar mas há quem os queira só para espantar, mesmo maltratados não espantam a lealdade e fidelidade a seu dono. Aves amarradas a braços humanos para turista ver. Vemos assim muito bem o que é ter asas para nunca as poder usar. Recursos naturais e espécies animais amarradas ao destino de proverem a satisfação de uma única espécie dita humana. Uma ribeira amarrada com muros e casas que a estrangulam, a quem culpar quando a natureza a extravasar para lá deste seu leito artificial. Crianças amarradas à privação e à fome, seus pais com o coração apertado partilham a escassez em face da abundância alheia. Gerações amarradas a uma dívida. Um governo amarrado ao lobby do betão, dos inertes, das concessões, sucintamente ao lobby dos amigos. Políticos emaranhados em delírios que louvam o que deu origem à desgraça. Um povo amarrado à austeridade. Um povo amargurado. Há em tudo isto algo que fere a nossa humanidade, um fado muito triste. Não há no entanto corrente nem amarra mais poderosa do que a maneira como pensamos sobre os assuntos. A natureza de todos os fenómenos é impermanente. Pense que tudo poderia ser diferente, acredite que pode e vai tudo ser diferente, acredite que pode agir diferente, vai ver que começa a agir diferente e isso é algo que se espalha. Se com isto não conseguirmos mudar o mundo teremos pelo menos conseguido colher o doce fruto da consciência de um contributo construtivo para o todo de que fazemos parte.
Rui Almeida, Deputado do PAN