O presidente do Governo Regional tem um estranho conceito do que é a democracia decente. Disse-o esta semana, quando se queixava do ministro da Educação. E depois de anunciar que a Madeira vai processar o Ministério (à conta dos contribuintes) o presidente, que discorda do ministro, afirmou que “numa democracia decente” Nuno Crato, o ministro, já teria sido demitido. Jardim até pode ter razão, não é isso que está em causa. O que aqui se coloca é o conceito de democracia decente que, na Madeira, tem uma versão própria, interpreta-se e aplica-se de forma diferente do resto País, é quase um regionalismo, é como chamar semilhas ao que os continentais chamam batatas. Nesta lógica da batata assistimos, quase incrédulos, a este esbracejar desajeitado de quem se queixa da democracia dos outros sem se ver ao espelho. O presidente que denuncia a indecência democrática do País é o mesmo que se orgulha de ser politicamente incorrecto e que o é, de facto, em várias ocasiões. É o mesmo que quase nunca vai ao Parlamento, que não aceita participar em debates, que inaugura o seu e o alheio, que põe e dispõe, que promete guerra à Comunicação Social que não lhe estende a passadeira vermelha. O presidente que pede demissões dos outros a torto e a direito, é o mesmo que em quase 40 anos de poder só se demitiu uma vez - e apenas para acautelar mais uns quantos anos de poder. E é o mesmo que não demite ninguém, apenas afasta do caminho quem se lhe opõe, mesmo entre os seus. Estranho conceito este de “democracia decente” vindo justamente de quem tem tão estreita visão democrática, de quem não permite liberdades e ousadias que apenas reserva a si e a alguns dos seus. Numa democracia decente, dirão outros, esta forma de fazer política já tinha passado à história. Disse ainda o presidente, a propósito da estranha decisão do Ministério da Educação que penaliza os professores da Madeira, que “só em Portugal é que isso acontece e os responsáveis ainda não foram demitidos”. Dirão do outro lado do mar (e cada vez mais deste lado também) que, por tudo o que se passou por cá nos últimos anos, só mesmo na Madeira é que isso acontece e os responsáveis ainda não foram demitidos. Mas, para isso, era preciso uma democracia decente. E o que temos é uma democracia doente.