Não era necessário ter esperado pelas audiências na Assembleia da República, a semana passada e esta terça-feira, para chegar a esta conclusão. Exponho-a agora porque era imprescindível que não houvesse nenhum tipo de ruído, como assumidamente se trata com este modesto escrito, antes das referidas audiências na ‘casa da Democracia’.

Antes de fazer o favor de continuar a ler-me, convém que o Leitor tome em efectiva consideração esta declaração de interesses: trabalho no DIÁRIO e assumo aqui uma posição claramente parcial pelas razões que todos compreenderão e que têm a ver com o escandaloso financiamento público – com os impostos dos madeirenses – de um jornal concorrente. Essa distorção do mercado põe em causa a sobrevivência desta empresa, sobretudo porque é cobardemente autorizada pelo Estado português e por esta Região Autónoma, contra uma instituição centenária que vai à luta todos os dias, que paga impostos e que ainda é o ganha-pão de dezenas de famílias. Para além do contributo efectivo, diário, para uma Democracia mais saudável nesta Região. Mas este aspecto deixo-o à consideração de cada um.

Ao contrário do que as pessoas têm sido levadas a pensar, o financiamento escandaloso do JM com dinheiros públicos não é um problema do DIÁRIO. Também é, mas não é com essa vertente que o madeirense deve preocupar-se em primeiro lugar. A questão é que os impostos dos contribuintes estão a ser desbaratados num ‘brinquedo’ que é usado por uma pessoa só, para brincar à política contra o seu próprio partido, para fazer ajustes de contas particulares dentro da sua própria organização, e contra toda a restante oposição.

Em nenhuma circunstância o contribuinte madeirense, incluindo os imensos militantes fiéis do PSD-Madeira, autorizou que os parcos recursos públicos deveriam ser usados num jornal de uma pessoa só, em detrimento de verbas para o funcionamento de escolas, de centros de saúde, ou para esbater as despesas diárias com transportes, água, eletricidade, etc.. Um governante – um único, contra tudo e contra todos – decidiu esbanjar 10 mil euros por dia desta maneira. É isso que está em causa, já lá vai mais de uma década.

Colateralmente, o brinquedo do presidente distorce as regras do mercado: o seu jornal não precisa de publicidade, dispensa as vendas, não tem problemas de tiragem nem de distribuição, nem precisa de fazer jornalismo, porque o dinheiro dos nossos impostos e os paus-mandados do presidente fazem o resto. Basta misturar umas notícias de futebol e umas participações de falecimentos (a preço da chuva) com os conteúdos presidenciais e está feita uma edição. O povo consome porque é de borla. À conta disso, o outro jornal – o jornal onde eu e mais 80 pessoas trabalham diariamente – vê fugir a publicidade que é oferecida no outro lado da rua. Não é a mesma coisa – dizem-nos. Mas é quase de borla e isso faz quase toda a diferença.

E onde é que entram os palermas a que faço referência no título desta crónica? Trata-se de uns senhores bem pagos pelo Estado e que integram a Entidade Reguladora para a Comunicação Social e a Autoridade da Concorrência. Uns e outros estão fartos de conhecer todos os detalhes do escândalo praticado por um homem só no JM. Em todos os lados asseguram que é mesmo um escândalo. Têm náuseas quando soletram o nome do prevaricador. Têm responsabilidades, sabem o que têm a fazer, mas não arriscam nada. No conforto dos seus gabinetes e longe da ‘ladrada’ na ilha, sacodem a água do capote. “Não podemos fazer nada”, disseram, candidamente, perante os deputados da Assembleia da República, após dois anos de reuniões a analisar o processo.

Não podem fazer nada e não têm competências. Para que servem, então? A resposta foi dada, há muito, pela pessoa que lhes provoca náuseas: são uns palermas, não servem para nada, só dão despesa. Infelizmente, o presidente tem mesmo razão. E se não fossem mesmo palermas, demitiam-se. É o mínimo que fazemos quando fazem de nós palermas...

Mas as palermices não se ficam por aqui. Que raio de país é este em que, de cima a baixo, todos os governantes e todas as autoridades sabem das irregularidades cometidas por um senhor, e dos custos públicos que elas geram, sem que haja um - um único - que tenha a ousadia de ir-lhe à mão? Parafraseando a anedota, em que alguém chama "oh estúpido!" num café repleto de gente e quando todos se viram, desabafa surpreendido: "Só chamei um!"

Pois é, os palermas não são apenas os senhores da ERC e da AdC.