Depois de anos de declarações de intenção, o Primeiro-Ministro irlandês, no quadro da Presidência da Comunidade Europeia, anunciou há dias a criação do ranking europeu das universidades. Com a tradicional lentidão a que já nos habituámos, a Europa vai, finalmente, criar o seu próprio sistema de classificação das instituições universitárias, cujo impacto vale a pena considerar. Comecemos por algumas observações genéricas. Em primeiro lugar, o número de universidades a nível mundial andará acima dos 10.000 (!). Para o leitor ter uma ideia, só a EUA, Associação Europeia de Universidades, terá cerca de 850 membros de 47 países europeus, segundo o seu próprio sítio (http:/www.eua.be/eua-membership-and-services/Home.aspx)! Estes números, por si só, são esclarecedores: é quase impossível, quer ao cidadão comum, quer ao decisor político, proceder a uma avaliação de uma universidade em particular sem dispor de um sistema que o ajude nesse processo. Mas também se torna evidente que um sistema que procure fazer uma avaliação de um tão grande número de instituições (mesmo que se limite às 850 que pertencem à EUA) será, certamente, redutor e ignorará aspetos que algumas instituições consideram fundamentais. Mais, um sistema de classificação deste tipo acabará por, de uma forma ou de outra, ter a tendência para adotar um padrão que poderá ser considerado benéfico para as grandes e mais famosas universidades. Uma outra observação genérica é a frequência com que encontramos, nas nossas academias, adversários destes sistemas de ranking. O argumento mais comum é o de que estes sistemas são demasiado simplistas e ignoram aspetos que podem ser de extrema importância em certos casos, como o das universidades de menor dimensão. Mas é comum ouvir-se também que, em última análise, estes sistemas são um pouco inúteis, pois os académicos, em geral, sabem em que instituições se faz melhor investigação e se forma com mais qualidade. Como é claro, há um fundo de verdade em qualquer destas afirmações, muito em particular na segunda. Faz, de facto, parte dos ossos do ofício ir sabendo onde, na nossa área, se realiza melhor investigação e ensino. O problema é que qualquer destes argumentos tem pontos fracos inultrapassáveis. Comecemos pelo segundo: os rankings não foram criados para os académicos, mas sim para os decisores e para o grande público, sobretudo aquele que deseja escolher uma universidade para prosseguir a sua formação. E, com a abertura existente hoje em dia a nível mundial, é por demais óbvio que esse grande público não dispõe da informação que os académicos, através de anos de trabalho, foram empiricamente recolhendo. O primeiro argumento tem a fragilidade de ser evidentemente aplicável a qualquer sistema de classificação, quer aos que já existem, quer a quaisquer outros que venham a ser imaginados, pois nenhum será alguma vez capaz de analisar tudo com a conta, o peso e a medida certa. De qualquer modo, no anúncio feito pela residência da Comunidade, parece afirmar-se a ideia de que os Europeus irão criar um sistema mais equilibrado do que os atualmente conhecidos, nomeadamente quando se reconhece que os atuais sistemas atribuem um peso excessivo à investigação em detrimento de outros aspetos do funcionamento das universidades. Mas, como sempre, a ideia tem, também, um aspeto negativo. Avaliar a formação, a empregabilidade e outros aspetos do funcionamento das universidades, para lá da investigação, irá trazer-nos ainda mais burocracia. Sobretudo vindo donde vem a ideia. Independentemente de tudo isto, resta a questão fundamental: servirá este ranking para alguma coisa? Melhoraremos com ele? Não sei, mas suspeito que, ao ser lançado sob a alçada da Comunidade Europeia, terá algumas consequências práticas. Por exemplo, poderá optar-se por não participar e, ainda assim, manter o direito de acesso a verbas comunitárias? Poderá ter-se uma má classificação e, ainda assim, ter o direito de acesso aos grandes programas de financiamento da investigação e da ciência? Não sabendo responder a estas perguntas a não ser com a minha impressão, que é a de que estes limites existirão, julgo que estas questões deverão ser muito ponderadas no futuro. Pelo menos para não termos mais surpresas desagradáveis como as que temos vindo a ter desde que a troika entrou no nosso país.
Castanheira da Costa