Quando falamos de liberdade ou de censura em Portugal, a primeira coisa de que nos lembramos é o período ditatorial do Estado Novo. Os mais velhos lembrar-se-ão da censura a que a imprensa e as artes foram submetidas. O 'lápis azul', instrumento utilizado pelos censores como reforço da protecção do Estado, constituía um processo preventivo contra a liberdade de expressão e, consequentemente, contra as tentativas de revolta ou de insubordinação ao regime. Foram tempos, foram vivências, foi História. Como História que são, os acontecimentos e as vivências do Homem repetem-se. A História é feita de ciclos e os erros também. Por falar em liberdade de expressão, de democracia e de regimes, confrotámo-nos há poucos dias com o caso da editora Tinta da China, constituída arguída por publicar um livro que delata homicídios, abusos, esquemas e fraudes em Angola, da autoria de Rafael Marques, chamado 'Diamantes de Sangue: Tortura e Corrupção em Angola'. Perante provas cruciais corroboradas por relatórios e por testemunhos que confirmam as violações dos direitos humanos em Angola, porquê escamotear ou negar verdades, tentando censurar, com mãos menos limpas, autor e editores? Por alguma razão o autor teve que publicar fora do seu país. As atrocidades denunciadas revelam que o poder é uma arma que seduz e consente a impunidade. A verdade, quando descoberta, é incómoda. No entanto, julgo que não será preciso ler ou ouvir notícias de tão longe. A censura, a corrupção, o jogo de influências são males universais que o Homem manuseia a seu belo prazer.

Fernanda Castro - Colaboradora da AAUMa