António Ferreira Sobre peregrina carta, esgrimem-se comentários. O mais fino (como um rato) foi: "Da boca da donzela não sai só água cristalina". Não dei resposta, afinal não conheço a dama. Mergulhei nos gregos, pais da civilização, mentores da democracia e portentosos sodomitas, em busca de luz sobre este caso. Os gregos não eram doces para o belo sexo, preferiam a nobreza da guerra, a elevação da filosofia, o rebate poético, a dar umas cambalhotas no Gineceu. Somos, porém, credores da sua cultura. Um exemplo: estamos em dívida para com Praxiteles. Antes de avançar para o escultor, uma sucinta história de má tradução. Os gregos traduziram do hebraico uma palavra que significava "mulher jovem" como "parthénos" (virgem, em grego), quando no hebraico existia um termo distinto para virgem: "bethulah". Isto provocou uma grande confusão e, porventura, alguns churrascos. Nos tempos antigos, houve um passatempo muito popular, denominado "pernil ou coxa de bruxa na brasa", provavelmente, fruto deste percalço. Voltemos a Praxiteles, o homem foi um iconoclasta, e aposto que o motivo será uma grande surpresa: ele quis esculpir o nu feminino. Naquelas bandas, a nudez pública só era aceitável para os machos. Há uma curiosa história, duma cidade, recusar uma bela Afrodite com tudo ao léu; estátua que, infelizmente, hoje já não podermos contemplar. O que sobreviveu foi uma versão pudica desta, com a deusa a esconder com a mãozinha os genitais. E a conversa não acaba aqui. Praxiteles usou como modelo a formosa Mnesarete, que ficou para história pelo nome que as amigas delicadamente atribuíram-lhe: Friné (Sapo). Já depois disto, Mnesarete foi levada a tribunal, por profanação e atitudes impudicas. Em defesa da idílica mulher estava o orador Hipérides, um dos seus amantes. O julgamento jorrou para o desfavorável, até o momento em que o manto da Friné evaporou, e a mulher exibiu o esguio corpo e os seus petulantes seios, dando aos jurados uma pontada súbita de condescendência. É preciso ser dito, que o despir do manto foi um gesto terrivelmente arriscado, e poderia resultar algo pior que o ostracismo. Sobre isto, duas versões, a que acabou por ser a forjada: foram as mãos de Hipérides que expuseram a nudez de Friné. E aquilo que realmente aconteceu: ela própria cometeu a ousadia. Volto a Praxiteles, ele ficou contente pelo veredicto favorável, mas irritado com a adulteração. Mnesarete podia ser condenada ou libertada, seja como for, que fosse julgada somente pelos gestos de sua própria iniciativa, e, não, pela graça de sabujas mãos de um qualquer orador. Praxiteles estrebuchou pela falsidade, e, nós, no século XXI, por todo o tipo de distorções ou deturpações, devemos fazer o mesmo.