Conheci o Manuel no Girassol, o anexo da Escola Secundária Jaime Moniz que agrupava os alunos da extinta Área D. A partir daí fomos mantendo o contacto, potenciado recentemente pelas redes sociais. No último e-mail, o Manuel lamentou o facto de nunca comentar as linhas simples e descomprometidas que escrevo no DIÁRIO. Quis dar-me uma satisfação, como se eu me importasse verdadeiramente com isso. Disse-me que não o faz porque receia ser mal interpretado pelo seu diretor e pelos colegas de trabalho. Como discorda dos comentários anónimos, remete-se ao silêncio, para que nenhuma das suas palavras seja entendida como um protesto, uma reivindicação - ou pior - uma crítica a quem lhe transfere mensalmente o ordenado. Trabalha numa câmara municipal há já alguns anos para saber como funciona a engrenagem. Se para mim emitir opinião é tão natural como beber um copo de água quando tenho sede, para este companheiro esse ato pode causar-lhe "incómodos". Vejamos: o Manuel tem subido a pulso na vida. Devido aos parcos rendimentos da família, fez-se à vida mal terminou o 12.º ano. Despojado de vícios, o que ganha é canalizado para as despesas de casa, não gozando férias nem participando em jantaradas com os amigos. Acabou o curso na Universidade da Madeira pouco antes dos 40, sem qualquer tipo de apoio do Estado ou do governo regional. Trabalhou e estudou. Constituiu família. Adaptou a casa dos pais a mais quatro pessoas, edificando um anexo que ainda está por legalizar na autarquia. Ganha pouco mais que mil euros por mês e não consegue fazer férias fora da ilha. A sua vida é igual à de tantos outros madeirenses anónimos. Tem opinião sobre o que se passa à sua volta. Mas não a difunde. O recato a que se impõe é mais forte que as injustiças que possa observar. O Manuel tem conta no Facebook mas não opina sobre assuntos que possam melindrar os seus pares. Que sirvam como arma de arremesso numa qualquer clivagem que possa existir. Já removeu amizades da rede social para não se "comprometer". Para ele não há discussão pública ou semipública das decisões da sua autarquia. Nada vale mais que a calma e pacatez da vida familiar. Ainda nos tempos de escola militou na JSD, mas cedo se apercebeu de que os lugares de interesse, que dão projeção social, conforto financeiro e, quiçá, passaporte para uma cadeira na Assembleia Legislativa, estão reservados aos herdeiros de uma linhagem que não era nem é a sua. Para ele, é melhor continuar a pensar que a política é para os políticos e que nada vai mudar substancialmente na sua vida e na da sua família, mesmo que os atores sejam outros. Numa terra onde a diferença de opinião pode ter consequências nefastas e provocar expulsões partidárias, é muito complexo fomentar uma discussão aberta sobre o que nos diz diretamente respeito. Mesmo que a realidade mostre que a austeridade em dose dupla está a ter resultados perniciosos no emprego, nas famílias e nas empresas, a maior parte da população mostra-se passivamente conformada. Penosamente resignada. Onde está o debate social? Que mudanças se pretendem operar? Quais as alternativas? Há luz no fundo do túnel? O Manuel não protesta, não reivindica e, pior, não participa. A mudança de mentalidades é a mãe de todas as reformas. Enquanto não forem dados passos nessa direção, continuaremos a ser uma espécie de vítimas da Síndrome de Estocolmo. As forças vivas e os políticos de boa vontade que pensem numa forma de inverter este modo de vida tão comodista, ausente de cultura democrática e de participação cívica. Porque para o Manuel o que importa, mesmo neste momento, é que as obras que fez no terreiro dos pais sejam aprovadas. P.S.: A prestação dos deputados do PSD/M na Assembleia da República no dossiê Jornal da Madeira é no mínimo embaraçosa para os próprios. Deveriam corar de vergonha perante os seus pares. Três dos quatro senhores já lá estão há tempo suficiente para saberem que numa democracia livre e adulta não deve existir propaganda oficial à descarada, paga pelos contribuintes.

Roberto Ferreira