
Propositadamente ou não, alguém se esqueceu de fechar a porta da gaiola da Quinta Vigia. Não a gaiola em cujo poleiro se mantém o irresignável presidente do governo da Madeira há 36 anos (essa porta há muito que está aberta), mas aquela onde é mantida em cativeiro uma arara, célebre por falar pelos 'cotovelos' e por 'assobiar', entre as grades da jaula, umas boas verdades inconvenientes.
A fuga da arara é uma alegoria sintomática da tensão e do nervosismo que se vive por aqueles lados, agora que se aproxima o dia D ('D' de Democracia com maiúscula) e da propalada acusação aos membros do Governo Regional que, mais tarde ou mais cedo, com maior ou menor imunidade parlamentar e com mais ou menos teias de influência pró-impunidade, vão ter de responder pela ocultação da dívida pública de 1,1 mil milhões de euros e pelos danos causados ao erário e aos contribuintes que estão a pagar do seu bolso a revisão dos défices e das metas orçamentais. Não há volta a dar.
Convenhamos que a ave não é estúpida. Até parece que viu os fiéis mandatários de Jardim mais empenhados em acusar quem fala a verdade - alegando fuga de informação, violação do segredo de justiça, difamação e outros que tais, assim que vieram a público notícias sobre a alegada acusação do DCIAP a todos os membros do Governo Regional - do que em apurar responsabilidades a quem é mestre em faltar à verdade, a quem mente por convicção e omite deliberadamente dados estatísticos, facturas e contas ao INE, ao Banco de Portugal e à Inspecção-Geral de Finanças, como se a governação fosse um jogo de tabuleiro partidário que termina com um xeque-mate aos Sócrates que fecharam a torneira dos euromilhões, dos lusomilhões ou dos credimilhões ao desgoverno da Madeira.
A arara até parece que leu as declarações de Alberto João Jardim, no jornal do chefe pago pelos contribuintes, que são perfeitamente elucidativas sobre a postura do presidente em relação aos funcionários públicos e aos técnicos de contas da máquina administrativa regional: “o Conselho de Governo quando toma decisões, resolve em função de processos cujos documentos já vêm tecnicamente instruídos, não cabendo a cada um dos membros do governo ir passar a pente fino, os processos um a um”, escreveu. Ora, Jardim diz que não sabe "nada disso" porque não é "o técnico de contas do Governo da Madeira". Se um homem que manda cavar buracos não é coveiro, só pode ser cabouqueiro ou engenheiro. Se já não corta fitas, nem descerra placas, nem inaugura coisa alguma, com a dívida colossal que tem, só pode ser coveiro.
Querem ver que a culpa é da arara? Se até o “povo superior” que coloca o retrato do Alberto João ao lado de Nossa Senhora de Fátima é despromovido a “cachorro” por ousar vaiar o presidente nos actos públicos, não será difícil imaginar que despromoção conhecerá o técnico ou o funcionário público que desautorizar o chefe e não cumprir as suas ordens. Alguns já fizeram como a arara que resignou ao poleiro: descobriram uma brecha de liberdade e, mesmo de asas depenadas, arranjaram força para voar dali para fora antes que fosse demasiado tarde.
Foi por isso que a notícia do desaparecimento da ave tropical da Quinta Vigia foi recebida como o pior dos presságios. Não fosse o bicho abrir o bico por essa cidade fora até ao Largo do Município e ao Palácio da Justiça, foi-lhe movido um mandado de detenção para condução ao poleiro, que é assim que as coisas funcionam aqui no burgo, ao abrigo da lei regimental da República das Bananas. A arara não teve descanso e ao 3.º dia de buscas, desceu à terra e voltou a ser mais um animal enjaulado que ornamenta a exótica política executiva regional. A liberdade cingiu-se a uma acidental saída precária que durou pouco mais de 48 horas.
O animal jejuou durante dois dias, andou a reflectir pelo arvoredo do Paço Episcopal,mas não encontrou um acto de contrição pelos seus pecados. Foi capturado pelos bombeiros ontem de manhã, no Museu das Cruzes, com vista para o 'Universo de Memórias' onde pretendia repousar a velhice no exílio de um poleiro discreto para apagar da memória a cruz que carrega. De “consciência absolutamente tranquila” como todos os louvados secretários regionais aposentados ou outros aposentados que, desfasados da realidade, teimam em reinar.