«Por outro lado o cinema é uma linguagem.» É com esta frase que André Bazin termina 'ontologia da imagem fotográfica', o ensaio de abertura da sua obra «O que é o cinema?». O autor, co-fundador dos Cahiers du Cinéma em 1951, é considerado por muitos um 'pai-inspirador' da 'Nouvelle Vague' de realizadores franceses; e é, sem dúvida, um dos críticos de cinema de maior relevância para a compreensão da sétima arte. Defensor duma visão autoral e realista, pelo uso de certa gramática cinematográfica: planos gerais e planos-sequência por exemplo (por oposição aos truques da montagem); Bazin, que faleceu prematuramente, gostaria com certeza de estar ainda a editar os Cahiers, tal como fez até morrer, com 40 anos. O editorial do número deste mês é dedicado a Hollywood e aborda os candidatos aos Óscares, cuja 85.ª edição da atribuição das famosas estatuetas acontece esta noite; na capa da mítica revista aparece uma bela fotografia onde o elemento que domina a composição é, claro, a bandeira norte-americana. Mas deixemo-nos emocionar pelas imagens em movimento. Aquela cena em que Lincoln (Daniel Day Lewis) se deita no chão ao lado do seu filho Tad (Gulliver McGrath) que, adormecido junto à lareira, se deslumbraria até ao son(h)o com umas imagens-outras, fixadas nuns frágeis vidros... depois os pequenos gestos de carinho paternal, o aninhar dos dois corpos um no outro, o pai carregando o filho às cavalitas em direção à ténue luz… O Óscar seria bem entregue a Steven Spielberg. Um senhor-cinema que conhece e domina como poucos a linguagem que é o cinema. [email protected]

Carlos Soares, Presidente da Cooperativa "Espaço às Artes - Cultura Ponto Zero"