Os actos extra-ordinários transcendem o seu autor e os gestos verdadeiramente históricos ultrapassam as circunstâncias, as motivações e até os efeitos mediáticos ou imediatistas que provocaram. Assim foi com Vasco da Gama e o seu "caminho" para a Índia, assim Copérnico e o movimento de translação da Terra, assim Gargarin e a sua chegada à Lua. Valem esses gestos não tanto para prestígio singular e sim pela força propulsora, colectiva, com que desbravam os trilhos do futuro ou redescobrem a sua fonte originária. É o caso: Bento XVI desistiu de ser Papa. Pouco importa se a doença ou se a impotência governativa determinaram a auto-despromoção de Supremo Bento-Papa para o normal posicionamento de José Ratzinger. Quem o admitiu foi o próprio cardeal de Paris, André Vingt-Trois:"Esta lúcida decisão quebra um tabu e constitui um acto libertador para o futuro" (Le Monde, 13/02/13). Neste sentido definirei, em jeito de paráfrase, que a decisão de Bento XVI foi um pequeno passo para a Igreja, mas um grande passo para a Cristandade. Ousarei acrescentar: para a Religião, para a Fé. Pequeno para a Igreja que anda devagar, grande para a Religião e para a Fé, que andam depressa e vêem o invisível. E porquê? A Igreja Romana, ao contrário da primitiva fonte evangélica e da sua mais genuína tradição patrística, traz consigo as marcas de um reino teocrático, monarquia inamovível, personificada num chefe sagrado e infalível, para mais, intocável na sua virtude - "Sua Santidade" - e omnipotente na distribuição autocrática de sanções e anátemas aos seus súbditos. Deste regime partilham os mini-papas, cada qual no seu posto (à imagem de patentes militares) milimetricamente nomeados e nobremente instalados na cúria romana, os cardeais; nas embaixadas do Vaticano, os núncios afrontosamente apodados de "apostólicos"; os bispos nos paços diocesanos e, ainda, os monsenhores-ministros sem pasta. Demonstração plena da estrutura vertical deste reino, aqui e agora, ao vivo: na situação de "Sede Vacante", isto é, enquanto não houver novo Papa, a Igreja Romana é governada por um Secretário de Estado, garbosamente identificado, o cardeal Tarcísio Bertone. Ironia das ironias: Pedro, o pescador da Galileia, transfigurou-se ou desfigurou-se em Chefe de Estado, com direito a palácio (outra vez, "apostólico") e Secretário/Primeiro Ministro. Ao que chegou a Religião, a Fé em Cristo, o qual "nem uma pedra tinha onde reclinar a cabeça"! E, então, a decisão de Bento XVI?... Quem não vê que ela desencadeou uma onda gigante, de dimensão de quase três mil anos (menos 313), onda que varre resíduos tóxicos acumulados no fundo e que nos chama a "surfá-la", mais que isso, a cavalgá-la decididamente até alcançar as praias do mar da Galileia, onde nos espera a Palavra daquele que se apresentou como "Caminho, Verdade e Vida"?! Incontáveis são as ilações e os avisos à navegação que Bento XVI quis transmitir. Não estarei longe da verdade se disser que, apeando-se do trono, ele regressou ao altar. Ao chão da vida. Por outras palavras: quem vier a seguir terá de entender que não é mais possível nem compatível arrogar-se o Representante de Cristo ou sucessor de Pedro o título e a função de Chefe de Estado. Aqui reside o vírus cancerígeno que mina e corrói por dentro a Igreja de Jesus, desde a tralha bafienta e traiçoeira da cúria romana ( na sua última missa em público Bento VXI queixava-se das rivalidades eclesiásticas internas) até à oficial "hipocrisia religiosa" (palavras suas). Seja qual for a nacionalidade do futuro Papa, o que todo o mundo espera dele é uma efectiva renovação que passará por muitos e diversificados registos, mas o maior e único necessário é o de renunciar liminarmente ao estatuto de Estado do Vaticano. O resto - ordenação das mulheres, banco do Vaticano, erradicação da pedofilia,etc. - virá tudo por acréscimo. Assim se exprime o pensador católico Juan Arías: "Enquanto o Papa não abdicar de Chefe de Estado, todas as reformas não passam de remendos no tecido da Igreja". Tal como está, o Vaticano é um contra-testemunho, a intransponível muralha de aço revestida de espessas púrpuras vermelhas que não nos deixam ver o rosto original de Jesus Cristo. Consumou-se o fim do pontifício privilégio vitalício. Falta o fim do mundano privilégio real, porque (está escrito) "o Meu reino não é deste mundo". Será preciso esperar mais 600 anos? Depende dos cristãos, pois agora foi dado um grande passo para a Cristandade, para a Religião, para a Fé.
Martins Júnior, Padre