para Inês. para Filipa. com a Manuela. Há uma demorada dança de olhares e de mãos que se reconhecem. No coração do labirinto, uma corrente de ar, livre, largo. O ombro, o abraço. O silêncio antes do incêndio. "Sem vós nós não somos", agradece Helder Macedo a todos os que, felizes, se reencontram nas Correntes d'Escritas, em curso há catorze anos, raro encontro de quem ama palavras, de quem prefere o pudor ao poder (Rui Zink), para quem a escrita é gesto de desobediência e de amor, de lucidez e de cegueira (Inês Pedrosa); ou rito, dança de pura beleza que Hélia Correia afirmou ser necessário resgatar do esquecimento neste nosso fracturado tempo. Talvez este acontecimento seja uma "terceira margem do rio" (Guimarães Rosa), lugar outro, utópico, que une, sem qualquer fronteira, cada um e todos os cidadãos; uma "ágora" onde acontece "essa festa contínua da palavra" (Hélia Correia), onde somos uma voz, "ainda que a literatura salve ninguém do incêndio" (Andréa del Fuego). Por dentro do vendaval de tantas, todas, tão intensas palavras tremem-me ainda os dedos e todos os sentidos, em assombro e em sobressalto. Outro tempo será o de lentamente lembrar, pousado no caderno, na pele e na memória, o "vento indeciso que precisa de braços fortes" (Andréa del Fuego). Sabemos que "agora é demasiado tarde", que "do que podia ter sido restam ruínas" (Manuel António Pina). E persistimos, resistimos, pois "de que armas disporemos senão destas que estão dentro do corpo?" (Hélia Correia): a memória. Por dentro da corrente dos dias chegam-me palavras que me são "um pensamento chegado" (Herberto Helder). Regresso, com Filipa Leal (em "Vale Formoso", de 2012), às férias grandes da infância demoraradas numa corda suspensa no medronheiro da casa dos avós paternos, no Minho, em tardes em que as minhas irmãs e eu tínhamos o "riso [que] ajuda a suspender o abismo" (p. 23). Sabíamos os nossos corpos seguros em nós dados na corda pelas mãos fortes do meu pai. O medronheiro foi abatido por um raio durante um temporal, há anos. Partiu primeiro o avô e, muitos anos depois, a avó. Ainda hoje tentamos aprender a perder, "desatando cordas", "descendo do baloiço" (p. 34). Por estes dias, o meu pai tem dedicado pacientes horas a concertar um relógio de parede em que as horas pararam. Quase a tocar a varanda da casa há um cipreste plantado há mais de quarenta anos pelo seu irmão, caído de um avião caído do céu antes de eu nascer. As mãos tremem-lhe a e ele e a mim, está frio e o tempo passa. Suspendemo-nos fascinados pelo incêndio que entrevemos na pequena lareira da sala ou no forno da cozinha, sorrimos entre o atropelo mútuo das nossas palavras, trauteamos Satie a tocar no gira-discos. Sabemos que vamos "preparando o silêncio" (p. 34), dormimos uma sesta em sofás ombro a ombro. Intuo, com Filipa Leal, que "[d]eve ser assim o amor puro" (p. 27). Numa noite madrugada li ao meu pai palavras de Inês Fonseca Santos ("As Coisas", de 2012). Aprendemos que "as coisas recuperadas [se] partem de novo" (p. 9). Mínúsculas, "As coisas irreparáveis" habitam a "casa" (p.10). "As coisas diferentes" não permitem tomar como semelhantes "o som dos cacos" e "o som dos teus passos" (p. 11). Há uma presença, o som - "o teu nome", inaudito - e um corpo, ainda ausente. "As coisas semelhantes" habitam-nos, como se em casa comum: "Tempo, amor e morte - sobretudo os seus lugares vazios" (p. 14). Amamos palavras. Aprendemos com Inês que "As coisas escritas" são cicatrizes que nos habitam corpo e epiderme, são origem e casa; são "as coisas inquebráveis": "[n]ão me lembro de outras / que não as palavras" (p. 48). O meu pai ensinou-me: sem voz nós não somos. Amor puro.

Diana Pimentel, Professora universitária