Óscar Pistorius, o atleta sul africano que nos últimos Jogos Olímpicos de Londres assombrou o mundo ao aparecer a representar o seu país na estafeta 4 x 400 m para não deficientes, tem estado no centro de todas as atenções por razões que se situam nos antípodas daquelas que o elevaram á condição de ícone de um país e de orgulho de uma comunidade. Pistorius nasceu diferente e por ser diferente aos onze meses teve de submeter-se á amputação das duas pernas. O que numa idade em que nem mesmo tinha ainda consciência das coisas o remetia para um estatuto de tremenda inferioridade. O facto, porém, de os pais lhe terem desde sempre dispensado grande apoio ajudou muito a superar os embates com que a vida o foi confrontando. Foram os pais quem teve a percepção da importancia do desporto na superação das dificuldades com que o pequeno Pistorius iria ser confrontado ao longo da vida. Daí que o tenham encaminhado numa primeira fase para a prática de várias modalidades desportivas ainda numa fase de apalpação até se fixar no atletismo e na velocidade pura. O que é espantoso na escalada de Pistorius é a sua permanente recusa em aceitar quaisquer facilidades. Tendo desenvolvido o gosto pela competição, ele poderia ter sido mais um atleta paralimpico igual a tantos outros. Mas persistiu em recusá-lo. A sua luta passou sempre pela oportunidade de competir em luta aberta com atletas sem deficiência. Não podendo dizer-se que o fizesse em condições de igualdade pese a sua extraordinária capacidade de superação pela circunstancia de se tratar em derradeira análise de um amputado das duas pernas. A luta que teve de desenvolver para poder competir com atletas sem deficiência foi igualmente dura porquanto subsistiram sempre dúvidas quanto á possibilidade de as próteses que passou a usar lhe poderem conferir vantagem relevante na competição desenvolvida com os demais atletas seus concorrentes. Os Jogos Olímpicos de Londres marcaram finalmente o momento a partir do qual Pistorius passou a poder competir sem constrangimentos com atletas sem deficiência. Isto não obstante a limitação de que era e é portador ser efectivamente incapacitante. Mas essa foi sempre a sua luta: que o aceitassem a competir com os demais com as condições que tinha. A participação em estafeta nos Jogos Olímpicos de Londres não se saldou por um êxito do ponto de vista do resultado desportivo alcançado. Mas significou indiscutivelmente uma vitória conquistada e daí o significado que lhe foi atribuído pela generalidade da opinião pública como também da opinião publicada. Confirmava-se assim a presença de uma nova referência do desporto mundial. Mas eis que da forma mais inesperada Pistorius aparece no centro de um caso de polícia de dimensões insuspeitas ao ser acusado de ter assassinado a namorada de forma premeditada em Pretória, sua cidade natal. As ondas de choque provocadas pelo inesperado da notícia não se fizeram esperar: a Nike, uma das suas principais patrocinadoras, retirou-lhe o patrocínio e outras empresas relevantes na cena desportiva passaram a colocar reservas á associação da sua marca ao outrora homem bala. Na verdade, no desporto olha-se cada vez mais aos efeitos da associação de uma marca a um determinado atleta. E neste momento a imagem de Pistorius não é exactamente recomendável, não representando boa publicidade para a marca que possa patrocinar. É na verdade dificilmente imaginável o que ora ocorre com Pistorius. Símbolo de uma nação tal como símbolo da África do Sul continua a ser o "capitão" da equipa de rugby que com a inspiração de Nelson Mandela se sagrou Campeã do Mundo e passou a assumir orgulhosamente a designação de "Invictus", Pistorius era bem o expoente de um sul-africano que, mau grado todas as agruras e desafios com que havia sido confrontado ao longo de uma vida ainda curta mas que constitui um exemplo ímpar de superação, havia dado certo. Carlos Moía, o Presidente do Maratona que recentemente o convidou para se deslocar a Lisboa e patrocinar uma competição de atletismo, referiu-se publicamente a ele, já depois da ocorrência dos acontecimentos que o colocaram no centro de todas as atenções, como um homem educado, portador de uma cultura acima da média, com quem era muito agradável conviver. O que é que faz de um homem com estas características um assassino é um mistério insondável que a decisão do tribunal que o julgará com grande grau de probabilidade não irá esclarecer! Em favor da tese que sustentou em tribunal certo é para já que o juiz que o ouviu o mandou aguardar julgamento em liberdade.

Carlos Sequeira