De todas as formas que há de ser interrompido, esta será a mais simpática. Foi mais ou menos isto que disse Pedro Passos Coelho, na Assembleia da República, quando na plateia se levantou um improvisado coro a trautear Grândola. O primeiro-ministro calou-se, o povo cantou e foi ordeiramente para a rua. Acho que podemos cantar todos. Grândola... fraternidade.... mais ordena.... Foi mais isto que disse e tentou cantar, aos solavancos por não saber a letra, o ministro Miguel Relvas, no exótico Clube dos Pensadores, quando na plateia surgiu um irado coro a entoar Grândola. O ministro cantou, riu-se, gozou até. O povo gritou e foi ordeiramente para a rua. Nada. Foi isto que disse Miguel Relvas no dia seguinte perante uma plateia de estudantes universitários. Convidado para falar sobre que jornalismo teremos daqui a 20 anos, o ministro, que se fez dr. por equivalência, não conseguiu dizer uma palavra que fosse perante os estudantes enfurecidos. Calou-se, os jovens gritaram e os seguranças fizeram o resto. Os estudantes foram desordeiramente para a rua. “Não vale a pena ladrar, porque ainda não aprenderam a ser cachorros”. Foi isto que disse Alberto João Jardim, ontem à tarde, perante um punhado de pessoas que o insultava no Bairro da Nazaré. Ali também se ouviram nomes nada simpáticos, também houve quem tenha esboçado, a solo, um tímido Grândola. Jardim insultado também insultou e entrou rapidamente no carro rodeado de seguranças. Este pequeno resumo do protesto cantado desta semana mostra que sobe o tom ao mesmo ritmo que baixa o nível. Mas a verdade é que a resposta baixa de Jardim aos baixos impropérios com que foi recebido não é nada de novo. Não surpreende porque vem na mesma linha do que já nos habituou quando chamou filhos da puta aos jornalistas para não chamar bastardos, meretrizes a adversários políticos, burros a quem lhe faz frente, efeminados aos militares e outros nomes que nem vale a pena lembrar. O que surpreende mesmo é o atrevimento deste povo que andava encolhido e que em poucos meses conseguiu tirar as mãos dos bolsos para esbracejar e até deixar cair um copo de cerveja. Que se arrisca a cantar Zeca Afonso, que usa palavras como “gatunos” para se referir ao ‘senhor governo’. Isso é que surpreende. Assim como o atrevimento da Justiça portuguesa que ameaça investigar o que se passa nesta ‘Fajã Escura do Atlântico’. Além da ideia de um eventual pedido de retirada da imunidade parlamentar, além da anunciada intenção de voltarem a fazer perguntas, agora é a notícia de uma eventual acusação a todo o Governo Regional por causa do processo da dívida oculta nas contas públicas da Madeira. Definitivamente, o cerco começa a apertar, o chão a fugir. Não há trabalho, para muitos não há pão e o povo ralha e com razão. Ainda mais quando esse mesmo povo, que era superior quando estava mansinho, é agora tratado a baixo de cão. Sim, porque quem não pode ladrar porque ainda não é cachorro, muito milho vai ter de comer para chegar a ser cão, por muito que seja essa a vida que leva. Nisso o presidente tem razão. Ao longo de quase 40 anos conseguiu domar uma sociedade que andou adormecida e a seguir fielmente o dono. Mas, nisto de animais, nem tudo é previsível. Até mesmo o cachorro mais bonacheirão, quando misturado com a matilha, um dia morde a mão... de quem lhe tirou a lentilha. Só mais um pormenor: estes cachorros também votam!