De acordo com a lei, um consumidor que não peça factura de um café, por exemplo, pode ser multado. O comerciante que tentar evadir-se em alguns tostões ao fisco também. Mas um Governo que deliberadamente não declara o que gasta, nem o seu real endividamento, tem imunidade e portanto de nada importa que tenha ocultado mais de mil milhões de euros de “abençoada dívida”.
Não sei se Alberto João Jardim incorre em algum crime. Mas sei que o presidente do Governo Regional não pode sacudir a água do capote alegando que não é técnico de contas e chutando para terceiros uma responsabilidade que, politicamente, é apenas dele, porque é ele quem tem, sozinho, destinado o futuro da Madeira há décadas, delineando uma teia de interesses onde agora também ele está emaranhado. Foi o próprio Jardim que admitiu que a dívida não foi reportada para evitar penalizações do Governo de José Sócrates, que, na altura, aprovou uma Lei de Finanças Regionais que previa que as transferências para a Região fossem reduzidas no montante da violação do limite de endividamento. Ou seja, que deixaria a Madeira sem dinheiro do Estado, à míngua, pelo menos por seis anos.
E mesmo conhecendo estas regras, Jardim prevaricou e foi atrás da “abençoada dívida”. E, por cá, não falta quem defenda que o importante é haver obra feita.
Enquanto o povo luta com outras regras, sem imunidade que lhe valha para sobreviver neste cantinho do céu cheio de obra e de "abençoada dívida", o presidente assobia para o lado. E nem sequer fala daquele que já foi o assunto mais importante do Mundo, mas que agora está nas mãos dos lacaios deputados e dos 'técnicos de contas' insulares, que tentam em Lisboa limpar a lama que foi deitada no nome da Madeira. Talvez consigam alguma esmolinha da República, para depois no Funchal reclamarem uma vitória estrondosa, de que Jardim será o primeiro a se vangloriar. Mas não há maneiras de a Região sair vitoriosa de uma Lei de Finanças de fórmulas aritméticas impossíveis, que a serem aplicadas, implicam um retrocesso de décadas para a Região. A Madeira vai ficar refém de si própria, com investimento zero. A Jardim apenas interessa o imediato, 75 milhões de Fundo de Coesão e não se fala mais nisso, quem vier atrás que feche a porta.
Isto só é possível pela imunidade que neste caso é também sinónimo de impunidade, que o povo lhe deu anos a fio. Esta prova de confiança quase cega e religiosa é mais ou menos como a dívida, parecia coisa de somenos, mas a conta acaba por chegar e com juros elevados.