Num dos sábados de Janeiro recebi, no meu telemóvel, uma chamada de um Pai de família, com filhos de dois, quatro e sete anos, a dizer-me que não tinha alimentos para lhes dar no domingo e a pedir a minha ajuda. Esclareceu-me para aquele dia ainda os conseguia alimentar, mas que no domingo iriam passar fome porque não tinha a quem mais recorrer. Tentei resolver o problema daquele Pai de família e durante a tentativa de resolução descobri que: 1) A linha 144 - linha emergência social - não é para estes casos, não havendo nenhuma linha ou instituição que esteja aberta ao fim-de-semana para estes casos. 2) Para quem não tem telefone fixo da PT, como é o meu caso, marcando o 144 somos atendidos pela linha de emergência nacional e não regional. 3) Apesar da boa-vontade e do profissionalismo dos técnicos, em particular da técnica do serviço regional com quem falei, é bastante difícil encontrar soluções porque as instituições de distribuição de alimentos às famílias não estão abertas durante o fim-de-semana. Ao longo do dia fui recebendo toques no meu telemóvel do Pai de família, ao qual ia telefonando a dizer que estava a tentar resolver o problema. Com o aproximar do fim do dia e sem resolução resolvi perguntar o que necessitava para que os filhos não passassem fome no domingo. A resposta foi: leite, manteiga e massa ou arroz. Perante esta resposta e imaginar que talvez estas crianças, assim como muitas outras no nosso país, já tenham passado dias a comer arroz ou massa e iriam agora passar fome, resolvi agir por mim próprio e fazer um cabaz como se fosse para um amigo, o qual levei a este Pai … deixando para a segunda-feira seguinte a tarefa de saber qual era o apoio social que está a ser dado a esta família. Fiquei mais tranquilo ao saber que as instituições regionais de apoio funcionam e que esta família está agora a ser apoiada e seguida por uma instituição. Sei que não fiz nada inédito, pois, muitos outros cidadãos têm agido de forma semelhante à minha ajudando os próximos e os menos próximos. Mas disto tudo temos de aprender uma lição que é a de que nesta crise a fome não escolhe dia da semana, por isso temos que nos voluntariar para que, juntamente com os técnicos, consigamos manter as instituições abertas todos os dias e acima de tudo temos que estar prontos a ajudar os outros, pois o nosso prato meio cheio saber-nos-á melhor que um prato cheio sabendo que o nosso vizinho tem o dele vazio.
Pedro Telhado Pereira, Prof. Catedrático da UMa