A TVI demonstrou ontem que para transformar um debate sério num 'reality-show' basta convidar Miguel Relvas. Que contributos poderia dar o ministro Adjunto e dos Assuntos Parlamentares sobre “como vai ser o jornalismo nos próximos 20 anos”, mote da conferência que assinalou ontem o 20.º aniversário da TVI, no ISCTE, em Lisboa, se ele é incapaz de distinguir jornalismo de uma folha de jornal? Que respostas teria para dar aos jovens estudantes se ele próprio é um ‘case study’ do sistema de ensino em Portugal? E o que diria um tipo que concluiu 36 cadeiras semestrais da licenciatura em apenas um ano e hoje promovido a ministro, àqueles cujas famílias foram assoladas pelo desemprego e têm de pagar propinas para poderem continuar a estudar? Que vejam o futuro por um canudo? A resposta da plateia foi categórica e encheu o país de orgulho. Os estudantes portugueses não estão moribundos e deixaram uma importante lição ao país: as palavras de ordem e as mensagens de protesto ainda chegam para calar ministros e para expurgar governos que não resignam.

Relvas ‘chumbou’ no coro de protestos que exigiam “demissão”. E ‘chumbou’ também na prova de canto. Em desespero de causa – corado, de voz trémula e testa a luzir – o ministro viu-se forçado a cantar “Grândola, Vila Morena”, disfarçando o murro no estômago dado pelos manifestantes presentes anteontem no Clube dos Pensadores, em Vila Nova de Gaia. Ontem, foi a vez dos estudantes mostraram-lhe o “livro negro da juventude” lembrando que "40% dos jovens estão desempregados” e sem perspectivas. Estes foram os dois 'encores' mais ouvidos da música de Zeca Afonso, depois do 'concerto' entoado na galeria do Parlamento para ser ouvido no palco principal onde discursava o primeiro-ministro, no debate quinzenal.

Definitivamente, Relvas, universidade, Parlamento e pensadores não combinam. Não são feitos da mesma matéria. “Ó Relvas deixa-me trabalhar”, lia-se num dos cartazes. “Emigrar pode ser algo extremamente positivo”, teria o ministro respondido. O “futuro do jornalismo nos próximos 20 anos” ficará bem melhor sem ele no governo. Basta ver a desastrada campanha de reestruturação da RTP: ninguém sabe o que vai sair dali, mas a raposa insiste que é ela quem melhor guarda as galinhas.

Neste lado do Atlântico, as hienas esfregam as mãos e passam-nas no pêlo dessa raposa matreira, à medida que vão sacudindo a água do capote e fugindo pelo rabo da lancha. A forma como o Governo Regional se atira ao serviço público de televisão, ávido por se intrometer nos critérios editoriais, é aterradora. As tentativas de ingerência não são novas, mas a partir do momento que deixarem de ser condenadas, o jornalismo morre. A reportagem da RTP sobre os 3 anos após a tragédia do 20 de Fevereiro foi classificada de “absolutamente imbecil” por Alberto João Jardim. O presidente do governo da Madeira, mostrou-se indignado pela opção da equipa de reportagem em ter dado voz às pessoas que sofreram com a tragédia e considerou que as imagens “exploram a desgraça”. Em suma, disse que foi um "tempo de antena à má fé boçal”, difundidas para todo o país, assim mesmo, como se o jornalismo fosse um género de propaganda.

Enquanto houver nos jornais, nas rádios e nas televisões espaço para ouvir a opinião do leitor, do ouvinte e do telespectador, haverá sempre um perfume de Abril. Um protesto que obrigue a prepotência a cantar corada e de voz trémula "Grândola, Vila Morena" e a ceder, a seu tempo, espaço à "Terra da Fraternidade".