Quem me conhece sabe que a religião e tudo o que a ela se associa, seja terreno, seja espiritual, exercem sobre mim um fascínio inusitado, inexplicável até, atendendo a que não me considero crente. Penso, aliás, que é na mira de querer sê-lo - felizes os que têm fé e veem no transcendente a derradeira salvação - que, desde há muito, procuro a revelação que me permita acreditar que existe uma ordem superior que está para além das contingências e que, por isso mesmo, lhes dá algum sentido. Procuro sem achar, na verdade. Mas, mesmo assim, não desisto porque, mais cá, mais lá, surge sempre algo que me mostra haver espíritos que, se não são divinos, pelo menos transcendem a condição de meros mortais. Joseph Ratzinger, o primeiro ex-papa da era moderna, é um deles. A resignação de Bento XVI, anunciada há oito dias, é, com efeito, um testemunho de grandeza, de superioridade de espírito, num mundo de "poderosos", quase de omnipotentes, onde ninguém se demite do poder, mesmo tendo razões de sobra para o fazer. Ratzinger, cujo papado cinzento apenas granjeou a minha simpatia por ter condenado o escândalo do abuso sexual de menores na Igreja e por ter defendido a transparência nas contas do Vaticano, volta a colher a minha humilde admiração por me fazer lembrar que todos temos um encontro marcado com a finitude e que ninguém veio, nem vem, para ficar. Ninguém, nem sequer o próprio papa, pode perpetuar-se no poder depois de concluído o seu trabalho. É essa a lição que o papado do sucessor do mediático João Paulo II deixa para a posteridade. Instaurando uma verdadeira revolução no seio da Igreja Católica, cujo alcance apenas será mensurado pela própria História, a renúncia de Ratzinger humaniza uma figura, a do papa, que durante séculos tem estado para além do bem e do mal. Trata-se, segundo historiadores e teólogos de todo o mundo, da dessacralização de um cargo para eleitos, de cariz místico, que só era abandonado às portas do Paraíso e que agora, pela ação de Bento XVI, parece ganhar um pendor mais terreno, na medida em que passa a ser entendido mais como um trabalho do que propriamente como uma missão perene ou não tivesse sido a falta de força física para exercer adequadamente o ministério petrino, ou, se preferirmos, a agenda que tal pressupõe, a justificação apresentada pelo Sumo Pontífice para resignar. Ratzinger faz jus às palavras de Hegel que escreveu um dia que os grandes homens não são apenas os grandes inventores, mas também aqueles que têm consciência do que é necessário num determinado momento da História. A consciência de que é preciso desistir e a coragem de fazê-lo transformam o Papa num desses grandes homens, ainda mais se atentarmos ao facto de que, enquanto o seu antecessor, João Paulo II, chegou até ao final para se tornar santo, Bento XVI declara não estar em condições de prosseguir. Rompe com o tabu de que o papa tem de morrer papa. E resigna com tudo o que tal implica. Sim, com tudo o que tal implica, pois não se esqueça que a Igreja atual só tem tratado de sucessões papais por causa natural, a entrada na eternidade, e que agora, por motivo de resignação, o ritual terá de ser, forçosamente, outro. E, por isso, as perguntas são mais do que as respostas. Que o diga o porta-voz do Vaticano, o pe. Federico Lombardi, que, desde a passada semana, se tem visto bombardeado, por jornalistas de todo o mundo, com questões tão pragmáticas quanto existenciais sobre o assunto: como será chamado o ex-Papa, já que Bento XVI, Sua Santidade ou Papa são títulos que, pela lógica, parecem estar fora do baralho? Será simplesmente cardeal Ratzinger, como se nunca tivesse sido papa? E, quando o Anel do Pescador com o seu nome for destruído e a sua infabilidade, que, segundo dogma da Igreja, é o garante de que um pontífice não comete erros em questões de fé ou moral, for revogada, deverá supor-se que o Espírito Santo deixou de guiá-lo para se guardar para o sucessor que sairá do conclave que se inicia em março? E qual será a relação entre o Papa que deixará de o ser e o próximo? De que cor será o seu hábito quando deixe o branco papal? Receberá pensão? O que acontecerá ao seu atraente secretário, monsenhor Georg Gänswein? Enfim, as perguntas são mais do que muitas e a fé, a que muitas vezes recorre a Igreja para explicar o inexplicável, desta feita não chega para lhes dar resposta. É, pois, mais do que óbvio o que algumas vozes dizem por aí: um papa morto é uma dor no coração, mas um papa resignado é uma dor de cabeça... De volta à grandeza de Ratzinger, não há dúvidas de que a sua decisão revela um gesto talhado à medida da modernidade, uma vez que pouco tem a ver com as renúncias dos quatro pontífices que, antes dele, abdicaram do cargo. Os contextos eram outros como outros eram também os papéis que o Vaticano desempenhava no mundo. Bento XVI é, na verdade, o único monarca absoluto que sobrevive no Ocidente - lembre-se que na figura do papa estão concentrados os poderes executivo, legislativo e judicial do Estado do Vaticano e da Igreja enquanto instituição - e que renuncia ao "trono" por entender faltar-lhe vigor, quer físico, quer espiritual, para conduzir a barca de São Pedro. Fá-lo também por preferir sair a ver-se entregue, velho e fraco, como aconteceu com o seu antecessor, nas mãos da Cúria Romana e dos protagonistas das guerras de poder que, desde sempre, existem no Vaticano e das quais o recente caso Vatileaks não é mais do que uma escandalosa consequência. Por isso, se é verdade que por enquanto "non habemus papam", pelo menos temos a certeza de que "habemus Hominem" e com "H" maiúsculo.

Eker Sommer