Daniel Rodrigues, 25 anos, fotógrafo, desempregado, vencedor do World Press Photo na categoria Daily Life.

No Caderno P3 do Público Daniel sorri na foto, mas só na foto. Ao lado está a imagem vencedora. É a preto e branco e mostra um grupo de crianças que joga à bola num terreno de terra na Guiné. Por momentos, tanto pode ser um jogo, uma dança, uma fuga. Há corpos, poeira, movimento e uma luz difusa.

A imagem é boa, muito boa mesmo. Mas Daniel já não fotografa. Não agora, não hoje, provavelmente nem amanhã. Daniel, desempregado, premiado, vendeu a máquina para fazer face às despesas de quem, aos 25 anos, é bom o suficiente para receber um prémio internacional, mas não para trabalhar no seu país.

Daniel está como na fotografia, entre a dança e a fuga, a preto e branco, difuso. Daniel é a imagem deste país, é a imagem de um exercército de desempregados, onde na mesma dança está gente que o país nunca conseguiu reabilitar, com baixa formação, mas também gente a quem o país fez acreditar que era possível. Fez acreditar que, um dia, o mérito, o talento, o esforço seriam premiados, fariam justiça, fariam a diferença.

E se Daniel é a imagem do país, a música que esta semana se ouviu na Assembleia da República é a banda sonora. Pode o primeiro ministro sorrir, pode a presidente do parlamento pedir que o povo saia ou silencie a voz, podem os comentadores desvalorizar o que dizem ter sido programado. Mas a voz, essa, ecoa. O Grândola trazido a este presente de desesperança ouve-se em pano de fundo. A terra já não é de freternidade, mas o povo parece sentir, de forma cada vez mais mais audível, que é ele quem mais ordena.

O povo pode cantar baixo, com a garganta amarrada pela fome, com os braços caídos ao longo do corpo, mas ainda canta. A última coisa a sair do corpo é a música e as palavras que nos dizem.

Não, senhor primeiro ministro, de todas as formas de protesto, esta não é a de melhor gosto, esta é a verdadeira, esta é a voz, aquela que não se cala, que ameaça cantar cada vez mais alto, acima dos números do suposto sucesso, acima do silêncio de um programa ideológico que se parece mais com uma máquina de destruição. Mas enquanto acima dessa máquina for a música a ouvir-se quer dizer que os corpos se recusam a cair. O seu movimento pode ser difuso, como na fotografia de Daniel, entre a dança e a fuga, mas estão lá, a levantar a poeira dos dias.