"Não é a bola uma carta/que se leva de casa em casa". A bola de João Cabral de Melo Neto "é antes telegrama que vai/de onde o atiram ao onde cai". Em Fernando Pessoa, "a bola rola pelo despenhadeiro dos meus sonhos interrompidos". A bola de Cecília Meireles "é bela, rola e pula/é mole, amarela, azul". Na minha rádio, Adriana Calcanhoto canta que "futebol sem bola/piu-piu sem Frajola/sou eu, assim, sem você...". E a bola que viola sistematicamente as fronteiras da impaciência do sistema? Será por culpa dela ou por culpa do sistema? O sistema que desconhece radicalmente a génese dos princípios elementares é um super-mistério: uma coisa ora real ora abstrata; uma tirania, uma coação que aparentemente não se sabe bem de onde vem e para onde quer mesmo ir, embora se fale muito dele, principalmente por causa das suas infindáveis teias. É como se especulativamente nunca existisse, existindo conscientemente de uma forma imaterial, sem rosto. O sistema incondicional serve inequivocamente a sua ideologia, seus leões e dragões, autores e atores, na feira da ladra da open society. E não há nada que escape a este tentacular sistema que, por regra, por pressão, se desenvolve à outrance em cérebros pseudourbanos, mefistofélicos, na periferia de uma comunidade individualista de padrinhos, lobbies, traições, sacristias e água benta. Nos seus tentáculos, a presa agoniza, desumaniza-se, apanhada entre Cila e Caríbdis. Tudo se atropela, entre ausência de coerência e abundância de vaidade, num egotismo, em desfile de posters. Pergunta-se: será apenas a visão panorâmica do poder que faz correr, de peito aberto, os zombies do sistema? Ou correrão, desenfreadamente, por um sistema que se alimenta na pura e límpida ambição? Se cada caso é um caso, cada bola é uma bola.

Juvenal Xavier, Jornalista