Passamos a vida a dizer que as pessoas só seguem os seus desejos, são egocêntricas e egoístas mas depois, na realidade do dia-a-dia, percebemos que fazemos muito pouco daquilo que desejamos e, muitas vezes, até nos culpamos por isso. Podemos referir, por exemplo, a situação em que devíamos telefonar aquele amigo que já não vemos há tanto tempo e não nos apetece fazê-lo. Porém, lá nos "obrigamos" a telefonar-lhe. Na azáfama do quotidiano acontece, muitas vezes, que respeitamos muito pouco daquilo que desejamos. Se calhar não é tão negativo fazer mais do que aquilo que desejamos e mesmo, em algumas circunstâncias nos obrigarmos a fazer aquilo que não desejamos. De facto, há tanta coisa que fazemos e que não nos apetecia fazer. É verdade que sabemos que temos que fazer algumas dessas coisas, mas de forma geral, respeitamos muito pouco o nosso desejo. Devíamos escutar e considerar mais o desejo. Muitas vezes desconsiderá-lo como se, no fundo, fosse um animal feroz que precisa ser domesticado. Há uma tendência geral de afirmar que se desejamos algo é porque esse "objecto" do nosso desejo não é bom (o bolo que se deseja, mas tem calorias a mais). Ora, o desejo é bom e saudável e é uma forma muito sábia de nos relacionarmos com a vida. No fundo, o desejo é uma espécie de indicador do modo como conduzimos a nossa vida, está a chamar a atenção para o que é importante, o que é belo, o que é sábio e, às vezes, para os obstáculos por mais que estes possam parecer muito subtis. Quando não escutamos o desejo e o associamos simplesmente ao proibido e ao pecado, no sentido de ver o desejo como mero sinónimo de impulso e então é imperioso domesticá-lo. Quando recalcamos esse desejo e fazemos aquilo que não nos apetece e, as vezes, até nos violentamos ao fazer algo que não desejamos, isso pode gerar uma energia de tal modo negativa, uma espécie de rancor e raiva que aquilo que achamos que estamos a fazer pode bem vira-se contra nós e contra a pessoa a quem achamos que estamos a fazer bem. Esta ideia obsessiva de que temos de renunciar, de forma quase obrigatória, ao desejo porque ele é perigoso é uma verdadeira tolice. É preocupante que as pessoas separem, desta forma quase mecânica, o bem do mal, e em nome desse eventual mal estejam a tentar "estragar" a sabedoria humana. Esta visão facilmente desenvolve uma postura pessimista sobre a vida. Os que seguem este negativismo pessimista não percebem que isso é uma atitude arrogante diante do conhecimento, pois é como se as pessoas que não querem aprender mais nada não tolerassem que outras pudessem dar-lhes luz sobre aquilo que lhes parece ser mais ou menos obscuro. Deste modo, o desejo enquanto tensão em direção a um fim, enquanto tendência que mobiliza, deve ser considerado, simultaneamente, como uma fonte de motivação e satisfação. É essa atitude mental que acompanha a nossa caminhada existencial e que deve ser cuidadosamente considerada. Assim, ao lançar-se sobre a realidade que nos rodeia, o desejo impele a consciência no sentido de quer a todo custo suprimir esta mesma realidade, apropriar-se dela e tornar-se a sua verdade. Passa-se a vida inteira a desejar e, no entanto, adia-se para o futuro a realização de tantos desejos, muitas vezes, até à idade em que a força, a saúde e a juventude já se desvaneceram e mesmo quando chega essa época, continuamos a desejar mais tempo para fazer mais do que aquilo que desejamos.
Marco Gomes