Durante anos, uma folha com estas palavras do poeta e dramaturgo espanhol Federico Garcia Lorca esteve colada no meu armário: "Às vezes, quando vejo o que se passa no mundo, pergunto-me para quê escrever. Mas, há que trabalhar, trabalhar. E ajudar o que mereça. Trabalhar como forma de protesto. Porque o impulso de uma pessoa seria gritar todos os dias ao despertar num mundo cheio de injustiças e misérias de toda a ordem: protesto! protesto! protesto!" Cala-se demais nestes tempos. Nestes tempos, consente-se demais. E, enquanto isso, a região, a nação, a União correm para o precipício. Fala-se demais nestes tempos. Nestes tempo, reclama-se demais. Qualquer coisa, qualquer coisa, pode dar origem a uma crucificação - basta uma vírgula mal colocada, uma letra fora do sítio, uma frase susceptível de interpretação abusiva. Sem perceber, estava a citar um poema do jornalista e escritor português Manuel António Pina: "Fala-se demais nestes tempos (inclusive cala-se)./As palavras esmagam-se entre o silêncio/que as cerca e o silêncio que transportam." Chama-se "Os tempos não", está logo a abrir o livro AINDA NÃO É O FIM NEM O PRINCÍPIO DO MUNDO CALMA É APENAS UM POUCO TARDE. Parece que uma terra inteira desistiu de descarregar frustrações onde mais importa. Parece que uma terra inteira prefere gastar energia com pequenos, curtos, estreitos, achatados nadas. Peço desculpa por tanta citação. Talvez seja do cansaço. Já vai adiantada a hora. Talvez seja do desnorte que tudo isto provoca. Por estes dias, também não me saem da cabeça três frases do filósofo e sociólogo francês Edgar Morin: "No seio das nações, como a nossa, as gerações mais velhas estão desiludidas com uma série de falsas promessas e as gerações mais jovens estão mergulhadas na desordem, sem ter causas a que se dedicar. Ora, só a metamorfose poderia mudar o mundo. Tudo o que não se regenera, degenera." Como é que se regenera? Tenho de reler Nicholas Stern. E talvez não seja má ideia voltar a imprimir Lorca, desta vez para o distribuir.
Ana Cristina Pereira