Primeiro foram os caminhos em terra batida, povoados por máquinas amarelas. Depois, os caminhos alcatroados, já com algumas carrinhas de caixa aberta. Mais tarde, foram as estradas por essa Madeira dentro. E nos últimos anos foram vias rápidas e expresso a ‘dar com um pau’. Agora, o presidente do Governo inaugura aquilo a que, de forma tão pomposa como ridícula, assim como quem goza com todos nós, chama de “vias internas urbanas”. E o que são vias internas urbanas? pergunta o Leitor. Basicamente, são becos. Sim, becos, como o próprio presidente reconheceu. Becos e veredas que já existiam no Jardim do Mar muitos anos antes do tempo em que o presidente do Governo andava de calça curta. Nova pergunta legítima: então que inaugura ele? Pedras. Basicamente inaugura pedras cuidadosamente aparelhadas no chão, ao bom estilo da calçada portuguesa. Ironicamente, este bonito símbolo de uma presença quase colonial deixada pelos portugueses do continente é quase tudo o que resta para Jardim inaugurar. Triste sina a de quem fez vida a cortar fitas e disso não prescinde. Antes que me chamem nomes, devo dizer que tenho grande estima pelos percursos pedonais do Jardim do Mar. Incluso, como escreve o presidente, já percorri alguns deles. Acho a ideia fantástica e elogio a visão dos autarcas social-democratas que a desenvolveram. Mas não aprecio este estilo doméstico de fazer política, que mais parece o prolongamento de um cortejo trapalhão sem ideias. No dia em que o presidente dava o gosto ao pé numa alegre passeata que se confundiu com um acto de pré-campanha para as autárquicas, soube-se duas coisas que deveriam preocupar seriamente qualquer governante sério: que os números do desemprego aumentar assustadoramente na Madeira e que o futuro desta Região estava nas mãos do austero ministro Vítor Gaspar. E depois de uma semana a tratar da vida interna do PSD qual foi o primeiro acto público do presidente? Desfilar no cortejo de Carnaval. E o segundo acto público do presidente? Assistir ao cortejo de Carnaval Trapalhão. E o terceiro acto público do presidente? Um passeio pelos belos caminhos pedonais do Jardim do Mar. Quando pediram ao presidente um comentário sobre o desemprego na Madeira, a resposta não podia ser outra: é culpa de Lisboa. Claro, de quem mais poderia ser... Alguém que caia na Madeira de pára-quedas admirar-se-á com esta ‘agenda governamental’ e estas respostas quase infantis, mas por cá é normal. É o que temos. Estamos na Madeira. A maioria até já nem aprecia o estilo, já percebeu a fraude política mas deixa andar. Quando bater, bateu! Não percebem, esses que não ligam e os que ligam mas defendem os restos da mesa do poder, que este regime já bateu. De frente e no fundo. Este modelo de governação encalhou nas suas próprias “vias internas urbanas”.