Tenho notado em redobradas intervenções públicas que os governantes regionais, sejam do Governo próprio ou das suas diferentes emanações autárquicas, que o discurso oficial se inicia sempre com críticas a Lisboa por não ter cumprido a Lei das Finanças Regionais ou, simplesmente, por não ter enviado o dinheiro expectável para a obra «X» ou o evento «Y», objecto de inauguração ou celebração colectiva. Trata-se aqui de fazer passar a ideia aos cidadãos madeirenses que não se fez o pretendido porque o dinheiro não chegou ou que se podia fazer melhor, e não se fez, porque alguém «de fora» do sistema de governação regional não cumpriu o que lhe era devido. Mesmo nos casos em que são as autarquias a depender de contratos-programa acordados com o governo regional! Todos sabemos que as coisas não se passam necessariamente assim e que a restrição de recursos públicos, vulgo dinheiro para investir, afecta tanto a região como o país, a Madeira, como Lisboa. Então, a ser assim, o discurso não deveria ser mais solidário? Até porque quando o dinheiro era distribuído «a rodos» e financiava não só o que era útil e socialmente justificável mas também o que alimentava fantasias ou desígnios eleitoralistas ninguém se lembrava de agradecer a Lisboa o seu contributo financeiro ou o seu alheamento de como os dinheiros eram aplicados na região. Por isso, quando leio que o governo regional vai processar o Ministério da Educação e Ciência na questão da exclusão dos professores da Madeira de um concurso nacional por «violação das leis, nomeadamente da lei da intercomunicabilidade, e do princípio da igualdade, consagrado na Constituição da República», ocorre-me perguntar se o mesmo raciocínio se aplica ao impacto na região do processo de ajustamento a nível nacional que afecta todos os portugueses? E, se assim é, qual o sentido da afirmação de um alto responsável regional enunciando que «ser português é muito mau para a Madeira»? É que, a dedução correlativa é a de que a Madeira não necessita de Lisboa, logo não há necessidade de afirmar-se recorrentemente que a obra tal não foi mais beneficiada porque o dinheiro não veio de Lisboa…até porque, o dinheiro não é tudo. E, o que devemos concluir de uma política de investimento excessivo em betão que agrada aos cidadãos mas os faz pensar que «o progresso sem betão é uma coisa estranha» e que um galardão como o que qualifica Santana como reserva da biosfera é uma treta? Ou será que a lógica que aceita que tudo o que está mal ser «culpa do outro» é a mesma que aceita que o betão é sempre uma coisa boa e que pouco importa a opção pelo progresso do indivíduo, pela sua formação, pela sua cultura e pela sua capacidade de influenciar uma economia mais competitiva que o torne mais autónomo e mais responsável?
Nuno Jardim Fernandes, Gestor