
Em menos de duas semanas, ocorreram dois incêndios em automóveis no interior de túneis, que por pouco não causaram males maiores. Em ambas as ocasiões, as entidades que deveriam exercer o papel de Autoridade de Segurança Rodoviária na Madeira, ficaram seguramente sentadas nos gabinetes, ouvindo as habituais justificações em causa própria. Que a concessionária Vialitoral cumpre com todos os requisitos de segurança, apesar de notórias as limitações ao nível do funcionamento de equipamentos como a ventilação (extractor de monóxido de carbono) e de iluminação necessária para garantir a evacuação dos passageiros do túnel da Quinta Grande. E que a Direcção Regional de Estradas “não tem dinheiro” para instalar uma boca-de-incêndio que seja no túnel Madalena do Mar/Arco da Calheta, deixando-nos a opção de escolha: o risco de morrer intoxicado num túnel com 1900 metros de paredes despidas ou seguir pela alternativa da antiga estrada regional onde caem pedras de uma escarpa à beira de ruir. E encontramo-nos aqui, neste fim da estrada, ao local de despiste da obstinação governativa onde somos confrontados com uma espécie de jogo de probabilidades, de ‘venha o diabo e escolha’.
A orografia explica muita coisa, mas não explica tudo. Mais duro do que o basalto é a cabeça de um desgoverno obcecado em tirar proveitos e dividendos da política de asfalto sobre betão armado que foi realmente estruturante durante duas décadas mas que nos últimos anos vem alinhando cadernos de encargos de obras com calendários eleitorais e iludindo o povo. Fizeram-se as estradas que podíamos ter e aquelas que não podíamos pagar. A quem serve o túnel da via expresso em São Vicente, um corredor de mercadorias perigosas com mais de 2.400 metros onde não há uma única boca-de-incêndio sequer? A quem serve os 40 milhões de euros em juros reclamados pelas construtoras? Quem responde pela dívida de 247 milhões e pelas fases de sete empreitadas das vias expresso, paradas no norte e oeste da ilha? No fim de estrada está a falência da ‘Madeira Nova’, essa fábrica ilusionista que mais desempregados produziu no sector da construção civil. O desígnio do desenvolvimento sustentável preconizado durante décadas resume-se hoje a túneis sem luz ao fundo e estradas sem saída.
É assustador que uma região com as características geográficas e com a importância turística que a Madeira tem despreze tanto a componente segurança na sua rede rodoviária regional. Como pode a região da União Europeia com mais túneis por área dar-se ao luxo de dispensar-se de cumprir os requisitos mínimos de segurança sugeridos numa Directiva Comunitária? O regime jurídico que estende a Portugal a rede transeuropeia já foi transposto para a legislação nacional há sete anos, mas a Madeira insiste em continuar de fora, como se o financiamento para estradas, pontes e túneis não viesse de Bruxelas e como se não fossem de especificidades regionais que se adaptam leis em regiões com Autonomia e Assembleia própria. Assim, não nos resta muito mais do que sermos equiparados à rede rodoviária transafricana. A um Zimbabué de um qualquer Mugabe.