O poder regional não se contenta com aquilo onde desterra milhões de euros para ter palco mediático. Esse é um caso perdido enquanto o obcecado Jardim estiver legitimado para cultivar ódios, a única tutela onde tem influência, pois quanto ao resto, para além de não governar, ficará para a história como o coveiro da Autonomia e das soluções que permitiriam pluralismo a custos decentes na imprensa escrita madeirense.
Se fosse honesto, explicaria aos madeirenses por que razão, em tempos, rejeitou a hipótese de poupar dois terços daquilo que gasta actualmente com o seu brinquedo a quem chama de jornal. Se fosse honesto, libertaria o mesmo meio e os jornalistas que ali trabalham da vigilância que oprime, dos recados que aprisionam, dos comissários políticos, dos fretes e dos textos sem assinatura. Se fosse honesto, não deixava os mesmos funcionários sem ordenado e com medo do futuro. Se fosse honesto, não perdia a cabeça com a tentativa de encontrar bodes expiatórios para mais uma grande fraude, a de que alguém, senão o próprio, quer fechar o JM. Se fosse honesto, já tinha saído de cena.
Pedir-lhe que seja honesto é utopia. Até porque os últimos sinais, discursos e gestos confirmam uma hipocrisia galopante reclamando dos outros obrigações que não cumpre nos meios às suas ordens. O desplante passa pela forma como "exige" alinhamentos e posturas à televisão e rádios públicas na Região, sem que tenha qualquer tutela sobre as mesmas, e pior, atentando contra tudo o que há de mais elementar nos meios de comunicação, a independência editorial; passa pela disponibilidade em transformar o centro regional da RTP em algo que lhe sirva, embora, mais uma vez, à custa do humilde contribuinte; passa pela declaração de guerra a quem informa sem lhe pedir licença, comentário ou parecer; passa pelas manobras subversivas e de ajustes de contas contra a imprensa dita hostil só porque não lhe faz a vontade.
O exótico líder do PSD e do Governo quer controlar tudo o que lhe escapa. Deitar a mão ao que diga respeito à comunicação social está-lhe no sangue. Apoderar-se de uma caneta, de um pedaço de papel ou de um microfone é muito mais que brincadeira de Carnaval. Viu-se durante a transmissão televisiva do cortejo alegórico do passado sábado que nem os profissionais de serviço, nem a administração com quem almoçou na semana passada Jardim respeita. Até o expansivo Jorge Gabriel ficou sem palavras perante a deselegância, em jeito de pergunta, se tinha recebido horas extra para estar na Avenida. Devia saber que na Madeira emprestar um microfone durante um directo a alguns notáveis é dar um tiro nos pés, hipotecar a carreira e comprometer o espectáculo. Mesmo que pela música ambiente do sambódromo improvisado ecoe o "se você fosse sincera"!
Post Scriptum: A Lusa, que tem na Região uma delegação, deixou de fazer a revista da imprensa que se publica na Madeira. Desde 4 de Fevereiro que os jornais que quiseram surgir com três míseros títulos que se perdem numa revista nacional foram obrigados a enviar antecipadamente as primeiras páginas para Lisboa. A desconsideração da Lusa pelos jornais seus clientes é reprovável. A agência deixou de ter obrigações de serviço público?